SUBMARINOS E AFINS

Já tinha ouvido de várias pessoas, cujas opiniões respeito, que o seriado Heroes, veiculado pela Universal Channel, era espetacular. Relutei um pouco em acompanhá-lo por basicamente dois motivos: 1. não sou muito afeito a super-heróis; 2. a série já estava na terceira temporada quando cogitei a possibilidade de começar a assisti-la.

Entretanto, Paula, certo dia, do nada, surgiu porta adentro, num rompante, dizendo que acabara de achar o DVD com a primeira temporada completa de Heroes, que Zeca havia copiado pra ela. Assisti ao primeiro episódio e, fudeu, fui fisgado imediatamente.

Verdade seja dita, adoro séries de TV. Assisto de tudo, sem preconceito. Até as produções de qualidade duvidosa, acompanho, no mínimo, alguns capítulos, para formar uma opinião e então decidir se descartarei ou não da minha grade de programação televisiva.

Ainda ontem, assisti a Monk. PUTAQUEPAIRU, que coisa tétrica. Se melhorar muito, muito mesmo, fica somente ruim! Pelo que entendi, deveria ser uma trama de investigação mesclada com comédia, na qual o detetive, Mr. Monk, consegue resolver os crimes no final, a despeito da sua atrapalhação. Infelizmente, pareceu-me que os roteiristas e o diretor ficaram perdidos e não galgaram sucesso nem como uma série investigativa nem, tampouco, de comédia. O capítulo a que assistimos acontecia dentro de um submarino. A graça deveria girar em torno da claustrofobia do protagonista e das alucinações que o faziam conversar com seu ausente psiquiatra. Mas tudo isso afundou...

Assim também foram vários matrimônios. Meu amigo e padrinho Leo, na porta da igreja, minutos antes de o meu casamento ter início, pegou-me pelo braço e profetizou, sussurrando no meu ouvido: “casamento é igual a submarino, pode até flutuar, mas foi feito pra afundar”. Na mosca. Precisão cirúrgica!Até hoje, peço a ele as dezenas para a MEGA SENA.

Quando fui convidado por Adriana e Julio para “dizer algumas palavrinhas” no casamento deles, confesso ter pensado em parafrasear meu profético padrinho. Entretanto, mesmo sendo um casamento descontraído, numa oficina, achei que não seria apropriada uma brincadeira que desse qualquer tom pessimista à celebração. Sendo assim, aproveitando que tinha sido testemunha ocular dos primeiros minutos deles juntos, resolvi, para não agourar o casal, contar a história da gênese do relacionamento. E foi assim:

A idade vai chegando, cai o cabelo, falha a memória
Mas vou tentar relembrar o primeiro dia dessa história
Deve-se ter muito claro de antemão
Que essa é somente a minha versão
Outros detalhes aconteceram com certeza
Mas não devem ser colocados, assim, em cima da mesa.
Julio tinha recém se mudado
Para um novo apê, aqui ao lado.
Adriana, menina esperta que não é abestalhada,
Aproveitou para aparecer assim que foi convidada!
É que Julio tinha chamado uns amigos para comemorar
O apartamento novinho em folha que acabara de alugar
E sabido que é
Tratou de chamar um monte de mulher.
Ok, confesso: “um monte” é exagero
Mas uma história que se preze há de ter tempero.
Voltando, então, Julio que não é nenhum banana,
Chamou poucos amigos... entre eles, Adriana!
Eu, da janela, num sofá meio desconfortável
Assistia aos dois levando um papo muito agradável
Julio tinha lido o manual! Fazia tudo no maior capricho:
Um sorriso aqui, uma bebericada ali, um cochicho
A noite avançava, bebia-se vinho, comia-se queijo
E tudo conspirava para o primeiro beijo...
Lá pelas tantas, se dizendo cansada,
Drika anunciou uma passagem marcada.
Deveria ir embora, pois ficar mais não podia
Já que seu vôo era cedo, bem cedinho no outro dia.
Julio, espertíssimo, nada morto
Logo se ofereceu para levá-la ao aeroporto
Propôs, ele: “quer que eu te leve de motocicleta?”
Respondeu, ela: “Na sua garupa, vou até de bicicleta".
Pausa, olhares, mais um gole de vinho
E Drika lançou seu irresistível biquinho!
Eu, de camarote, percebi naquele momento
Que vinho + biquinho = casamento!
Há quem acredite em ciência, simpatia, na lei da atração
Pra explicar o imponderável desejo do coração
Prefiro simplesmente admirar a beleza
Dos encontros promovidos pela natureza:
O primeiro raio de sol anunciando o amanhecer,
Ou o perfume da grama molhada ao chover
Seja da serenidade do rio com a braveza do mar
Ou de duas pessoas que resolvem se amar.
Aproveito, então, o grato ensejo
Para expressar meu mais profundo desejo:
Que essa comemoração de hoje, essa nova realidade
Seja regada diariamente com muita felicidade.
Só uma última palavrinha dedicada a vocês
Para acabar com esse falatório de uma vez:
Meu querido Julio, minha amiga linda Adriana,
Alimentem o espírito, mas não se esqueçam da vida mundana.

Antes tivesse parafraseado o meu padrinho....

P.S.: Agradecimento especial a Adriana, que não somente autorizou, mas também estimulou a publicação desse texto.

Este texto foi revisado por Paula Berbert

KURT COBAIN x JIMI HENDRIX

Tudo aconteceu muito rápido. Era início da década de 90 do século passado, Seattle apresentava uma alternativa para quem já não agüentava mais aquele rock xurumela do Aerosmith. Alice in Chains e Soundgarden eram minhas bandas favoritas, apesar de ter sido o Nirvana que abriu as portas do grunge para mim.

Ainda lembro quando, em 1991, Irmão Carlos (hoje vocalista da banda Irmão Carlos e o Catado) apareceu em nossa sala, na extinta Escola Teresa de Lisieux, com um LP que estampava na capa a foto de um bebê submerso como se seguisse uma nota de 1 dólar estadunidense presa a um anzol. Ele estendeu o braço empunhando o vinil e, sério como poucas vezes o vi, disse: “você tem que ouvir essa porra! Logo!”

Em pouco tempo, já estava andando com camisa quadriculada de flanela amarrada na cintura, tênis surrado e patches das bandas prediletas costurados no jeans. O cabelo, obviamente, fugia de tesouras ou qualquer objeto cortante que ameaçasse seu casamento com a lei da gravidade.

Eu faria 17 anos em junho daquele mesmo ano e, por não ter tido nenhum contato com rock’n’roll em casa, corria desesperadamente em busca de novas referências musicais, pois já me achava um velho. Talvez por causa dessa sede insaciável, cometi um grave erro que mudou o meu comportamento por anos a fio. Confesso que ainda trago alguns resquícios daqueles dias. Hoje, entretanto, manifestados de maneira bem mais sutil.

Numa semana qualquer de 1991, assisti na casa de Duda – minha namoradinha – ao filme The Doors, com Val Kilmer interpretado Jim Morrison. O queixo caiu! Logo depois, ainda na companhia da minha, então, amada, com uns três dias de intervalo, assisti a uma cópia VHS, feita de fita para fita, do documentário sobre Woodstock. Pirei o cabeção.

Se por um lado conheci Jimi Hendrix, Janis Joplin, The Who, Ritchie Heavens, e Joe Cocker, por outro, o vestuário grunge perdeu espaço para calças de Bali – tão coloridas que poderiam ser usadas por um palhaço em dia de circo –, braceletes, gargantilhas, anéis de prata, sandálias de couro compradas na Barroquinha, ou de pneu compradas em Lençóis, batas, bolsa feita em tear, no estilo carteiro, e, o pior de tudo, o símbolo do PAZ E AMOR tatuado no ombro direito. Sem contar o fato de ter cursado 5 dos 9 semestres de Musicoterapia, além de fumar o cigarrinho do capeta para expandir a mente e alcançar outro nível de percepção da realidade tolhida pelas convenções sociais retrógradas, opressoras e hipócritas. Eu estava pronto para fazer a revolução e, com certeza, não estava sozinho.

Hoje, continuo ouvindo rock, ainda acredito em princípios de liberdade e igualdade – apesar de entender que as vias podem ser outras –, mas me visto basicamente com calça jeans e camiseta, não expando a mente há pelo menos 5 anos e o PAZ E AMOR do ombro foi coberto por outra tatuagem, como 99,9% dos meus amigos que se tatuaram na adolescência fizeram, os meus cabelos estão curtos e... caindo.

O processo de cortar o cabelo não foi tão simples. Na verdade, eu tinha um apego quase doentio às minhas madeixas. Por um bom tempo, achei que a minha beleza se resumia aos meus sedosos e longos fios castanhos. Tinha certeza absoluta de que, se eu os cortasse, ninguém se interessaria por mim. Parecia loucura e, de fato, era.

Com o passar dos anos, percebi que não precisava agradar a todos nem, tampouco, que os meus atributos físicos seriam responsáveis por atrair pessoas para perto de mim. Foi um alívio entender o quanto boas idéias podem ser mais eficientes do que um abdômen de tanquinho ou um bíceps proeminente.

Claro que adoraria ter um físico de Apolo, porém agora já sei que se eu malhar muito e, talvez, com ajuda de uma lipoaspiração consiga entrar no padrão Globo de novos “talentos”. Boas idéias, entretanto, não se conseguem em academias.

Ainda lá, na minha recém pós-adolescência, resolvi treinar Jiu-Jitsu. Não tinha a menor pretensão de virar um troglodita de orelha inchada que vive procurando brigas em boates e festas. Treinava para mim. Tanto que, mesmo com a pressão do Sensei, Charles Greice, jamais participei de campeonatos. Só queria ter mais noção corporal, fazer uma atividade física e, em caso de emergência – coisa que nunca aconteceu –, me defender.

O cabelo abaixo do ombro, quase na altura do peito, atrapalhava. Fiz trança, rabo-de-cavalo, coque e até usei toca de natação para treinar, mas nada dava jeito. A cada treino, chumaços eram impiedosamente arrancados durante os combates. Na época, eu lutava de segunda a sexta, durante três horas por dia. Pelos meus cálculos, em menos de um ano eu estaria completamente careca somente em função dos treinos, já que a calvície, típica da família Lubisco, ainda não se manifestara.

Pois bem, foi durante uma visita à minha família em Porto Alegre que tomei coragem e, sem avisar a ninguém, com o auxilio de meu primo Daniel, irmão de Xande, passei a máquina 4 na cabeça. Foi um corte, sem metáfora alguma, radical. De longos fios que passavam dos ombros para quase careca. Ainda recordo meu choque diante do espelho. Só não chorei desesperado porque Dani, provavelmente, percebendo o meu semblante de horror, disse:

– Bah, Negão! Tá tri a-fu! (em Porto, tudo é abreviado. Fim de semana é finde; churrasco é churras; chimarrão é chimas e “a fuder” é a-fu.)
– Vo-vo-você a-a-acha?
– Tu vai ver, Negão. Sucesso garantido. Deixou de parecer pelotense e tá com cara de macho da fronteira.

Ainda não muito convencido, fui me submeter ao primeiro teste: minha vó Ilka, mãe de minha mãe, viúva de meu vô Humberto. Ela morava, e ainda mora, num pequeno e confortável apartamento na Anita, perto da Praça da Encol, a uns 100 metros da casa de Tia Hedy, mãe do auxiliar de cabeleireiro e motivador.

A sensação da brisa no couro cabeludo foi a minha diversão durante o trajeto. Ao chegar, pedi para o porteiro interfonar me anunciando, peguei o elevador e, até chegar ao 9º andar, não consegui desgrudar os olhos do espelho, encarando aquele estranho.

Toquei a campainha e ouvi a voz rouca de minha vó dizendo que já vinha. Ouvi também Êda, a fiel escudeira, perguntado se não era melhor que ela, Êda, abrisse a porta, pois Dona Ilka, com a dificuldade de locomoção devido ao sobrepeso e aos dois joelhos operados, demoraria muito para se levantar do sofá e alcançar a porta. Minha Véa Vó, com a chamo carinhosamente, meio impaciente, insistiu:

– É o meu neto, eu abro. Ele não vai se importar de esperar.
Estava certíssima. Esperaria séculos para vê-la, se preciso fosse. Minha vozinha, querida.
Alguns poucos minutos se passaram até eu ouvir a chave girando na fechadura e, vagarosamente, a porta de abrir:

– Tcharam! Gostou?
– Ai, meu Deus do céu! Você está tão... tão... tão limpo!
– ...

Como assim “tão limpo”, minha Vó?! Como assim?!



Texto revisado por Paula Berbert

FÉ

Na sexta-feira passada, fui ao Póstudo – talvez o único bar realmente tradicional da capital baiana – com Paula e, por acaso, encontramos dois grandes músicos nascidos na República da Cidade Baixa: Alexandre, baterista de uma influente banda local de surf music (com grande influência do carnaval russo), e Silvano, baixista que hoje mora em São Paulo e toca com o maior expoente do rock soteropolitano, em nível nacional.

Conversamos longamente, aproveitando cada minuto daquele encontro fortuito. Discorremos sobre filhos, casamento, divórcio, pais separados, fusca, a vida na Paulicéia, rock e, para o meu deleite, sobre o depoimento de Silvano no ainda inédito DVD do Cascadura (Efeito Bogary).

Há poucos meses, me dedicara à tarefa de traduzir para inglês todos os depoimentos e trechos de música desse registro audiovisual que fecha o ciclo de quase três anos do álbum Bogary. Foram mais de dez horas ininterruptas de trabalho para vencer os 50 minutos do documentário. Tarefa árdua, mas muito prazerosa por me permitir, em primeira mão, ver os grandes nomes da minha geração fazendo história.

E ali estava Silvano, bem na minha frente. Ele, que era protagonista de um dos trechos que mais me emocionaram, bem ao meu alcance para contar os detalhes do dia da gravação, dos sentimentos, o que foi cortado pela edição, entre outras curiosidades. Ele contou. Respondeu minhas perguntas. Divertiu-se revivendo as próprias histórias e me fez rir. Ri muito mesmo!

Quando já estava se despedindo, Silvano pediu o número do meu celular:

- Me dê seu celular aí, vá.
- Quero deixar bem claro que posso até fornecer o número do celular, mas dar, jamais. Eis um verbo que não conjugo na 1ª pessoa em nenhum tempo verbal.
- Verdade. Certíssimo! Forneça aí, então, vá!
- Blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá.
- Ô, Lubisco, você tem nome?
- Lubisco já é um nome, porra!
- Entenda, velho: um nome... nome de verdade. Pra colocar na agenda.
- Eduardo. Eduardo Lubisco.
- Acho melhor Lubisco. Nunca saberei quem é Eduardo.

Nomes incomuns sempre chamaram a minha atenção, principalmente por não compreender como alguns pais, diante da recém-parida cria, eram capazes de escolher coisas tipo Ubatan.

Quando eu era aluno de Professora Helena, da 4ª série C, tive um colega batizado com esta alcunha. O coitado sofria por causa do nome, viu? Como crianças podem ser cruéis. Chamávamo-lo de Cubatão, fazendo referência à cidade paulista que, na época, era considerada a mais poluída do mundo. Além de os nomes soarem, de alguma forma, parecidos, Cubatão, ou melhor, Ubatan, não era muito chegado a banhos. Diversas vezes um odor meio estranho emanava daquela pele branco-encardida. Se tivesse cor, aquele cheiro seria cinza, igual aos joelhos dele.

Com o passar do tempo, percebi que os pais de meu encardido coleguinha não foram dos piores em matéria de escolher nome. Tive, ao longo da vida, contato com pessoas cujos nomes poderiam ser, facilmente, confundidos com malogro de magia negra.

A lista é interminável e pode ser subclassificada em categorias distintas, como, por exemplo, nomes de inspiração hippie. Tenho uma prima distante chamada Flor, namorei com Manhã, troquei idéia com Sereno e vi uma colega de colégio, após ter se mudado para o Vale do Capão, batizar o próprio filho de Raio. Perceba que sonoramente muitos deles são agradáveis, mas, pelamordedeus, chamar um recém-nascido assim é sacanagem. O pobrezinho sequer pode se posicionar contra.

Outra categoria muito comum é a junção de dois nomes para formar um terceiro. A lista a seguir não se trata de ficção. Todas estas pessoas existem e, com certeza, já passaram por algum tipo de terapia para superar tamanho trauma:

Raimundo + Wanilda = Rayvani
Hildete + Mário = Hildemar (é uma mulher!)
Francisco + Alba = Franalba
E as duas irmãs que, por terem um pai que amava o próprio nome e uma mãe que idolatrava nomes “estrangeiros”, ficaram assim:
Fernanshirley e Fernancheise.

Tem os que, não contentes com a própria miséria, eternizam poluições sonoras ao alcunhar o herdeiro com um nome que já passa há gerações através de Filhos, Juniores, Netos e até Bisnetos.

Minha amiga Martinha namorou um Gorgônio Filho. Nana, minha irmã mais velha, foi colega de Próculo Junior. Na moral, se eu fosse juiz e chegasse às minhas mãos um caso com qualquer um desses dois sendo acusado de abrir fogo contra inocentes numa sala de aula, eu procuraria um atenuante. Puta que pariu, mermão. Um cara que cresce sendo chamado assim tem o direito de perder o controle e atentar contra a vida de qualquer um, estando previamente justificado.

E tem, claro, aqueles nomes que são meros frutos do gosto duvidoso. A mãe de Próculo, que foi minha professora de geografia da sexta série, chama-se Zoraide; a cunhada de minha avó paterna é Zenóbia; uma das grandes amigas de Tia Zenóbia é Zínia; o ex-porteiro do condomínio Pedras da Colina, Eisenhauer Motta; e o campeão do mundo mundial, o professor de geofísica da UFBA, Telésforo.

O nome, entretanto, que até hoje me causa arrepio no espinhaço é o de uma das quatro irmãs de minha Vó Diva. Não pela sonoridade em si, Tia Armida, mas basicamente por dois motivos: 1) a inexistência da capacidade de abstração nas criaturazinhas humanas durante a primeira infância; 2) a inabilidade de Tia Armida em expressar seu bem-querer por mim. A única recordação que tenho dela é quando ia para a casa da minha Vó Diva e ela, sorridente, dizia:

- Diva, pega um saco de Paes Mendonça que eu vou levar esse menino pra morar comigo!

Eu tremia ao imaginá-la me colocando dentro daquele típico saco de supermercado, ainda em papel pardo com letras azuis-marinho. Tadinha! Mesmo agora, já falecida há mais de duas décadas, quando lembro, tenho calafrios. Não recordo de sua fisionomia, mas a sensação de pavor ainda me surpreende de vez em quando.

Tia Armida nunca teve netos, talvez por isso amasse tanto os três da irmã mais nova. Assim também era Dona Lúcia. Sonhara com uma neta que jamais veio, mas conseguiu realizar-se com Paula, a filha mais nova de sua sobrinha. Paula, por sua vez, de bom grado, aceitou aquela terceira avó. A amava de verdade.

Invariavelmente no caminho da escola para casa, pedia para ficar na “casa de Vó Lucia”. Desafortunadamente, nem sempre era possível, mas, quando o era, Paula e Lúcia ganhavam o dia. Brincavam horas a fio como se na sala houvesse não uma, mas duas crianças com cinco anos incompletos.

Na fazenda de Tio Rogério e Vó Lucia (somente na cabeça de uma criança tios e avós são casados), havia uma casa de boneca construída só para Paula. Não era uma casa daquelas de madeira que se coloca dentro de uma caixa e se esquece dentro do maleiro quando as bonecas são deixadas de lado pela pré-adolescente. Era uma casa erguida com tijolos, cimento, telhas e mobiliada na proporção perfeita para uma pessoinha viver ali. E Paula, nas férias, mudava-se para lá.

Foi no início de uma noite de outono que Liliana, com olhos mareados, interrompeu a brincadeira dos filhos com um sério pedido:

- Paulinha, Pêu, parem aí um pouco. Acabei de receber um telefonema avisando que Vovó Lucia sofeu um acidente na fazenda e está muito dodói. Vamos rezar porque ela tá precisando muito.

Paula largou os brinquedos na sala, voou para o quarto e pôs-se de joelhos a rezar. Rezou, rezou, rezou e, quando já estava exausta, rezou mais uma vez pedindo ao Papai do Céu que ajudasse Vó Lucia. Caiu no sono com as palmas das mãos juntas.

Na manhã seguinte, Liliana não a acordou com o beijo na testa de sempre. Foi uma lágrima materna que, ao tocar sua tez alva, a despertou. Vó Lucia não resistira mais aos ferimentos internos causados pela queda do cavalo e, de madrugada, enquanto Paula sonhava com a casa de bonecas, se foi.

Naquela manhã, Dona Lucia morreu para família e amigos; Deus, para Paula... e para mim também.
Este texto foi revisado por Paula Berbert

CRIATURA HORRIPILANTE

Tem certos dias em que não deveríamos, sequer, cogitar a possibilidade de levantar da cama. Por que não há uma lei regulamentando isso? Ontem foi assim. Acordei tarde (6:40 a.m.), tomei banho gelado, pois o chuveiro queimou assim que girei a torneira, fiquei sem café da manhã para não deixar meus alunos esperando muito – àquela altura já estava, de fato, atrasado. Quando cheguei à garagem, percebi que tinha esquecido parte do material. Subi correndo os 10 lances de escada que separam a garagem do meu apartamento, notei que esquecera a chave de casa na ignição da moto. De raiva, quase bati a cabeça na parede. Desci correndo os 10 lances de escada que separam o meu apartamento da garagem, peguei a bendita chave, subi os 10 lances de escada que separam a garagem do meu apartamento, peguei o material, chequei para não esquecer mais nada, desci correndo os 10 lances de... você já sabe, guardei o material no baú da moto, coloquei o capacete, ajustei os óculos escuros, botei a chave na ignição e... quem disse que consegui girar a chave pra fazer o motor funcionar? O miolo da ignição travou por causa da chuva do dia anterior! Como assim, uma chuvinha de merda acaba com uma peça que custa mais do que a soma dos meus salários dos três estabelecimentos em que ensino. Como assim, mermão!?

Peguei o material no baú, pus o capacete lá, corri para um ponto de táxi que tem aqui, na rua debaixo, liguei para o celular de um aluno avisando que chegaria atrasado. Tentei relaxar durante o trajeto, pois o dia ainda seria longo! Chegando à UFBA, paguei pela corrida o mesmo valor de uma promoção da Mc Donald's. Corri até o PAF III, esperei o elevador descer do último andar e, finalmente, agora sim, finalmente mesmo, cheguei à sala 310, onde meus queridos alunos se aglomeravam na porta. Coloquei meu material na mesa, sentei na minha quase-confortável cadeira, respirei fundo e quando, por acaso, olhei para o chão, percebi que o pé esquerdo da minha bota de trekking – comprada há menos de um ano – tinha rasgado, deixando a meia branca, na altura do mindinho, exposta para quem quisesse ver. Putaquepariu!!!!! Sapato furado é foda! Sapato furado é roteiro de filme trash com pretensão de ser cult!

Após as duas primeiras aulas do dia, fui ao Departamento de Germânicas, no segundo andar do Instituto de Letras, logo ao lado do PAF III, para filar o café de Glenda, a secretária mais eficiente do mundo. Além da competência incontestável na sua área de atuação – não reconhecida por alguns membros da aristocracia germânica –, Glenda prepara o café mais saboroso de Salvador e região metropolitana. Chegando lá, encontrei também Claudia Mesquita, minha eterna professora de Sintaxe, que me perguntou como eu estava. Desconsiderando o fato de ter sido uma pergunta meramente formal, relatei todos os acontecimentos daquela tenebrosa manhã de quarta-feira. Juro que eu esperava uma reação de solidariedade. Porém, não foi o que aconteceu. Voltando-se para mim e para Glenda, retrucou:

Claudia – Pior foi o meu dia ontem.
Glenda – E isso lá é possivel? Pior que isso?!
Claudia – Dei aula das 7:00 às 11:00 com uma exaqueca daquelas. À tarde, não agüentei mais e fui para o hospital. Fiquei sob observação, fazendo exames e sendo medicada até o comecinho da noite. Se não bastasse a zonzeira dos remédios, quando cheguei em casa ainda tive que enfrentar uma barata.
Glenda – Afe! A pior parte foi a da barata! Parece filme de terror!
Eu (pensando) – Como assim, a barata foi a pior parte?! Como assim?!

Fiquei imaginando os testes que José Mojica, o Zé do Caixão, aplicava na seleção de atores para seus filmes. Como os orçamentos eram reduzidíssimos e não havia grana para efeitos especias, ele utilizava bichinhos tipo morcegos, cobras, aranhas e baratas de verdade. Então, o ator que conseguisse tocá-los ou tolerá-los passeando pelo seu corpo estava aprovado! Filme Trash com T maiúsculo! Sem subterfúgio. Tipo Ed Wood (1924-1978), diretor e produtor estadunidense que ganhou notoriedade pelas soluções pouco convencionais ante problemas orçamentários dos seus filmes de terror e ficção científica.

Certa feita, convidou Bela Lugosi (1882-1956), o famoso Drácula dos anos 30 – esquecido com a decadência dos filmes de terror nas décadas seguintes –, para estrelar Plan 9 From Outer Space. Lugosi, infelizmente, morreu após a primeira semana de gravação. Para aproveitar o que já havia sido filmado, Ed Wood encontrou um outro ator que tinha os olhos parecidos com os de Lugosi e terminou o filme com a personagem usando uma capa que, apoiada no antebraço diante do rosto, deixava apenas os olhos de fora. Inacreditável. Um filme inteiro com apenas os olhos do protagonista à mostra.

Foi justamente essa forma de empunhar a capa diante do rosto que me salvou durante um terrível embate contra um determinado tipo de inseto cosmopolita, cujo principal problema que pode causar à espécie humana é a atuação como vetor mecânico de diversos patógenos, tais como bactérias, fungos, protozoários, vermes e vírus.

Era uma noite sem lua e de vento frio. As primeiras horas da madrugada já avançavam no antigo relógio de parede e minhas pálpebras não suportavam mais o peso do cansaço. Fui até meu quarto, enfiei-me debaixo das cobertas, apaguei o abajur e fiquei esperando o sono me tomar de vez. Foi quando, envolto no manto escuro da madrugada, ouvi aquele ruído característico de asas e das anteninhas que riem sadicamente do nosso pavor. Acendi a luz e lá estava, acintosamente pousado na janela do meu quarto, um baratossauro. Insitintivamente lancei mão do pé direito da minha bota de trekking recém-comprada e fiz menção de arremessá-lo contra o monstro cascudo. Refuguei ao lembrar que a janela era de vidro. Resolvi, então, com o lençol a tiracolo, correr até a área de serviço e pegar o Baygon!

Voltei pé ante pé, usando o lençol à guisa de “capa de Bela Lugosi” para me proteger de um possível rompante de fúria do inimigo que me espreitava. Naquela época, meu quarto tinha poucos móveis: apenas a cama, o armário e três almofadas enormes no chão, encostadas na parede, bem em frente à cama. A primeira coisa que notei no campo de batalha foi que a miserável não estava mais na janela. Feladaputa, pensei. Vasculhei o ambiente com os olhos e não consegui nenhum contato visual. A única possibilidade então eram as almofadas!

Com o braço esquerdo segurando o lençol a la Ed Wood e o braço direito estendido à frente do corpo, empunhei o spray letal. Chutei longe a primeira almofada e despejei sem piedade o líquido mortífero. Assim que a pequena névoa sufocante se desfez, vi que o ser infecto não estava lá! Putaquepariu, putaquepariu, putaquepariu, quase berrei. A tensão aumentou. Tinha que ser agora! Proferi um certeiro golpe com meu pé canhoto na segunda almofada e novamente atentei contra a vida do enviado das trevas! A nuvem se dissipou e nada! Como assim? Quem é o roteirista dessa merda?, questionei. Era a útima almofada! Quase debruçado sobre ela, mão suando e olhos fixos no que poderia sair dali, pontapé, almofada voando, spray aniquilante, nuvem que se desfaz e... nada! Fiz aquela velha cara de interrogação e quando retornei à posição ereta percebi, com a minha visão periférica, um vulto na parede, bem na altura da minha cabeça! Virei e me deparei com a encarnação do capeta balançando as anteninhas para mim, a menos de 30 cm do meu rosto. Argh!!!!! Dei um salto pra trás no estilo Matrix e, ainda no ar, alvejei a escória do esgoto com uma sprayzada certeira. A desgraçada caiu no chão e, mesmo cambaleante, fugiu na tentativa de salvar sua mísera vida! Com o tubo cilíndrico de veneno a 10 cm de distância, impiedosamente fui despejando todo seu contéudo sobre o troço nojento que pelejava para escapar. Atravessou meu quarto, cruzou a porta, arrastou-se pelo corredor, entrou no quarto de minha irmã e foi aí que parei. Afinal, jamais acordaria minha amada irmãzinha no meio da noite com jatos de veneno.

Na manhã seguinte, quando acordei, minha mãe e minha irmã já estavam tomando o café da manhã. Juntei-me a elas e travamos o seguinte diálogo:

Mãe – Kika tava aqui me contanto que quando acordou achou uma barata morta ao lado da cama.
Eu – Que coisa, hein?
Kika – Deve ter entrado pela janela. Só vou dormir com ela bem fechada a partir de agora.
Eu – Que nada, Kika, relaxe. Isso não vai acontecer de novo.
Kika - Como você pode ter tanta certeza?
Eu – Intuição, Kika. Intuição...

Texto revisado por Nídia Lubisco

E AÍ, DUDA?

Supertrunfo começou a ser produzido no Brasil nos anos 70 pela Grow, mas só ganhou popularidade na década seguinte. Podia ser jogado por qualquer pessoa alfabetizada e consistia em tomar todas as cartas dos outros participantes. Originalmente com automóveis e outros veículos automotores, cada uma das 32 cartas trazia uma foto com os detalhes da máquina em questão e suas características, tais como velocidade, HP e 0/100 km/h.

Sendo criado entre duas irmãs, nunca encontrei um oponente em casa. Meus vizinhos do Condomínio Caminho das Árvores, na Av. Paulo VI, onde morei até meus treze, quatorze anos, eram parceiros e rivais. Geralmente jogávamos no comecinho da tarde, enquanto esperávamos “o sol esfriar” um pouco para então bater o baba, brincar de siga-o-mestre, polícia-e-ladrão, andar de patins ou partir em nossa aventura predileta: pegar as bicicletas e explorar todas as ruas da Pituba, Itaigara e Caminho das Árvores... sem a autorização dos pais, é claro.

Essas excursões começaram, na realidade, com o aprimoramento da brincadeira siga-o-mestre, que, originalmente, acontecia só no playground. Percebemos, então, que seria mais excitante se fosse de bicicleta, entre o gramado e a garagem. Até que um dia, Túlio – conhecido pelas traquinagens e merecedor de uma reunião extra entre moradores do Ébano e do Álamo para deliberarem sobre a punição ideal pelo esvaziamento de todos os extintores de todos os 8 andares dos dois prédios que formavam o condomínio – passou pelo portão da garagem, tomou a rua como se estivesse entrando na própria sala de estar e ganhou o mundo. Nós, fiéis escudeiros, seguimos o mestre. Desta tarde de quinta-feira em diante, todas as incursões ciclísticas visavam à expansão de fronteiras.

Uma das melhores aventuras foi quando pedalamos por toda a Paulo VI no sentido Caminho das Árvores – Correio Central, viramos à direita, avançamos por aquela transversal em direção à ASBAC, quando vimos surgir à esquerda, para o nosso regozijo, o estacionamento do Paes Mendonça (atual Bompreço). Era descomunal. Um verdadeiro parque de diversões cheio de obstáculos, além da verdadeira emoção de automóveis vindo em todas as direções. Era uma bagunça maravilhosa!

Minha mãe só fazia compras lá, até a construção do Hiper Paes Mendonça, ao lado do Shopping Iguatemi. Adorava ir com ela, apesar das horas de espera na fila das caixas registradoras e do atendimento tosco. As funcionárias pareciam fazer favor, e com muita má vontade. Eram extremamente grosseiras e não tinham idéia do significado da expressão “tratar bem”. Se hoje reclamamos dos serviços tradicionalmente ruins na capital baiana, imagine naquela época em que nem se sonhava em atendimento de excelência! Toda vez que nos deparávamos com alguma grosseria por parte de vendedores ou prestadores de serviços em geral, ouvia D. Nídia Lubisco dizer: “até parece caixa de Paes Mendonça”.

Como sempre digo aos meus alunos: “melhor não é bom. Se você tirou 1,0 na primeira avaliação e 2,0 na segunda, melhorou 100%, mas ainda continua uma porcaria”. Nos últimos 20 anos, o atendimento ao público deixou de ser horrendo e é somente muito ruim. Algumas empresas, entretanto, têm a cara de pau de utilizar o bom-trato como diferencial. Como assim, diferencial?! Isso não é pré-requisito? Tratar bem o cliente não deveria ser algo extraordinário, mas sim corriqueiro, da mesma maneira que devemos cumprimentar o porteiro do nosso prédio, dar bom dia ao entrar no elevador ou ceder o assento aos mais velhos. E, além do mais, se eles querem mesmo vender, me convençam a voltar.

Boa vontade, entretanto, não é o suficiente para garantir sucesso no que concerne a um bom relacionamento entre funcionários e clientes. Treinamento é imprescindível. Excesso de zelo pode ser desastroso. Quantas vezes entramos numa loja e o/a promotor(a) de vendas (não há mais vendedores nesse país, pois é politicamente incorreto, assim como não há mais contínuo, apenas auxiliar de escritório) nos chama de “meu bem” ou “querido”?

Lembro de uma vez em que fui comprar jeans. Ao entrar na loja, a sorridente vended... ops, promotora de vendas, que diga, me cumprimentou e logo perguntou meu nome. Para evitar a típica cara de interrogação das pessoas que ouvem Lubisco pela primeira vez, resolvi simplificar e disse, a contragosto: Eduardo. Escolhi um par de tom claro, daqueles que já parecem velhos, sabe? Adoro. Fui ao trocador experimentar enquanto Márcia (esse era o nome dela – lembrei) ia à busca de um número maior, caso a cintura apertasse muito meus pneus. Passados alguns minutos, ela bateu na porta da cabine onde eu pelejava pra fechar o zíper e perguntou: “ficou boa, Duda?”. Duda?! Duda?! Puta que pariu, mermão! Como assim, Duda?! Como assim?! Comprei uma calça em outra loja por quase o dobro do preço, mas com o prazer de ser tratado como um cliente e não como o brother que senta à mesa do boteco pra comer água.

Em 1992, um colega de 2º ano colegial perdeu o pai inesperadamente. Infarto fulminante. Toda a turma se solidarizou diante da tragédia. Acho que, de certa forma, o pai dele – pensávamos – podia ser o nosso. Os mais próximos acompanharam tudo de perto. Inclusive a contratação do serviço funerário.

Por uma infeliz coincidência, tanto a viúva quanto o irmão mais novo do falecido contataram lojas especializadas no assunto. Quando perceberam o ocorrido, compararam os preços e decidiram contratar o serviço providenciado pelo tio do meu colega. A viúva, após inúmeras tentativas frustradas por telefone, resolveu ir pessoalmente cancelar a reserva, para não deixar na mão o rapaz que a tinha atendido magistralmente. Como a funerária era bem ao lado do hospital, ela queria aproveitar a oportunidade para andar um pouco e desanuviar as idéias. Com um pouco de insistência, a convenci de que seria prudente acompanhá-la, pois ainda estava muito recente, blá, blá, blá, blá...

Chegando lá, Minha Tia (como todos os amigos a chamavam) explicou a situação ao funcionário, que se mostrou muito compreensivo e até ensaiou algumas palavras reconfortantes. Depois de tudo resolvido, Sr. Washington (lembrei também) educadamente nos conduziu à saída, apertou a minha mão firmemente – devia pensar que eu era filho do morto –, olhou nos olhos de Minha Tia e, passando a mão no ombro dela, disse:
- Muito obrigado pelo cuidado da senhora mesmo num momento tão difícil. Não foi dessa vez, mas fica pra próxima...
Silêncio.
Nos viramos ainda estupefatos e, após uns três ou quatro passos, ouvimos:
- Voltem sempre!

Texto revisado por Paula Berbert

CHOQUE DE GERAÇÕES

A melhor coisa que Nelson Motta já fez, de longe, foi comer Marisa Monte. E olhe que ele já escreveu livros (Nova York é Aqui: Manhattan de Cabo a Rabo; Noites Tropicais: Solos, Improvisações e Memórias; Canto da Sereia), tem parcerias memoráveis com Lulu Santos (Zen-surfismo, aquela que diz “nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia, blá, blá, blá”...), além de ter idealizado e produzido as vovós dos Menudos: As Frenéticas.

Originalmente, elas eram garçonetes que, com suas roupas coladas no corpo e maquiagem carregada, trabalhavam na discoteca Frenetic Dancing Days, do próprio Motta. No meio da noite, elas subiam de surpresa ao palco, cantavam três ou quatro músicas e voltavam a servir. O sucesso foi tão grande que o sexteto, formado por Sandra, Regina, Leiloca, Lidoka, Nega Dudu e Edir, deixou o serviço de garçonete para trás e se dedicou somente ao espetáculo musical.

Em 1978, no auge do disco, as afilhadas de Nelson Motta emplacaram a música Dancing Days na novela homônima da Rede Globo. No ano seguinte, conseguiram a façanha de emplacar outra música de abertura em mais uma novela Global. Coincidentemente, esse folhetim televisivo é a minha primeira memória de programa não-infantil (Vila Sésamo, com Armando Bogus, Sonia Braga, Garibaldo e Gugu, e o Sítio do Pica-Pau Amarelo nunca saíram de minha lembrança... Ai, que medo da Cuca!). Eu amava a abertura de Feijão Maravilha e, segundo minha mãe, vivia cantarolando, mesmo aos 5 anos de idade, “Dez entre dez brasileiros preferem feijão...”.

Nunca fui um grande noveleiro. Diversas vezes me senti excluído de conversas por ser incapaz de opinar sobre a malfeitoria de fulano da novela das seis ou sobre o novo corte de cabelo da protagonista da última de Manoel Carlos. Por outro lado, rio das pessoas que, desdenhosamente, olham de soslaio para os noveleiros, como se assistir a novelas fosse um crime contra a cultura, afinal “isso é, na realidade, subcultura”, como ouvi certa feita em uma mesa no Pós – repleta de gente inteligente que só tem conversa inteligente, só conta piada inteligente, só tira foto inteligente, só come comida inteligente e só anda com gente inteligente. Esses mesmos que olham de canto de olho esquecem – ou simplesmente ignoram – que os romances românticos também eram publicados em estrutura de folhetim, capítulo a capítulo, podendo ter sua trama modificada de acordo com a reação do público. A essência continua a mesma, somente a mídia foi transferida das cordas vocais dos poucos alfabetizados que liam em voz alta – muitas vezes ainda no porto, assim que recebiam mais um capítulo – para as telas de LCD.

Meus amigos Cyro Serpa e Ronei Jorge e minha irmã, Kika, são os maiores noveleiros do mundo mundial. Kika e Ronei têm a mesma característica: lembram que ator interpretou o papel X na novela Y no ano tal. Impressionante. E se, por acaso, alguém menciona o nome de uma atriz e ninguém mais recorda quem ela é, prontamente eles, com a naturalidade de quem bebe um copo d’água, nos (lá ele profilático) enchem de referências: “na novela blá, blá, blá, ela era Cicraninha, casada com Sr. Fulano, interpretado por... como é nome dele mesmo? Aquele cara que em 1986 teve uma breve aparição na novela tal, em que a protagonista era atropelada por ele no capítulo vinte e oito... ah, o nome dele é Beltrano Silva, lembra?” Como assim “lembra?”, como assim?!

Já Cyro consegue não somente recordar das músicas de abertura como também dos temas de cada personagem. E pior: muitos desses temas ele toca no violão. Inacreditável. Não entendo por que eles não se associam e abrem uma consultoria para participantes de quizes. Ganhariam uma grana preparando esse povo.

São poucas as lembranças novelísticas que tenho. Quem matou Odete Roitman? Foi a pergunta que paralisou o país em 1988/89. Ainda parte da trama de Vale Tudo, escrita por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, Heleninha Roitman, uma bebum que vivia pendurada num copo de uísque, foi eternizada por Renata Sorrah. Em 1993, Mulheres de Areia, de Ivani Ribeiro, fomentou inflamadas discussões sobre as irmãs gêmeas – idênticas na aparência, mas opostas no comportamento – interpretadas de maneira magistral por Glória Pires.

Recentemente, percebi que as novelas têm as mais diversas funções, além de entreter os telespectadores ávidos por fatos humanos fictícios, porém verossímeis. Uma delas é fazer a clara distinção de gerações. Explico: a depender da referência que se faça a determinada novela, o seu ouvinte pode ou não compreender sua fala em função da idade que tem.

Vivenciei isso na minha aula de Inglês em Nível Intermediário da UFBA, que acontece às segundas, quartas e sextas, das 7:00 às 9:00. Na moral, uma quebra de raciocínio para propor uma reflexão: quem, em sã consciência, no perfeito funcionamento das funções mentais, opta por um horário de corno desse?! E são 43 alunos matriculados, com uma média de 36 por aula. Tem gente que mora a 150 km de Salvador e nunca se atrasa! PELAMORDEDEUS!!

Bem, voltando. Justamente nessa turma, no primeiríssimo dia de aula, durante a chamada, me deparo com uma daquelas piadas prontas, perfeitas para você ser agraciado com o Nobel da Piada...
- Paloooma.
- Preeeeesent!
- Paulo Josééé.
- Heeeeere, teacher.
- Raqueeel.
- It’s me.
- Ruuute.
(Silêncio)
- Tonho da Luuua.
(ah...... ah... ah... eh, eh... ah, eh)

Só meia dúzia de gatos pingados daquela sala infestada de calouros foi capaz de reconhecer a minha genialidade.

O melhor, entretanto, estava por vir após um mês das aulas iniciadas. Durante a chamada – sou do tipo que faz chamada, pois acredito que os alunos de universidade pública carregam a responsabilidade de os contribuintes pagarem para que eles possam usufruir desse privilégio –, percebi que Rute jamais tinha dado o ar da graça. Dirigi-me, então, a Raquel e, sorrindo, disse: “Poxa, Raquel, sua irmã gêmea nunca aparece!”... E ela respondeu: “É que eu faço o papel das duas, né, Lubisco?!”.


Texto revisado por Paula Berbert

JOGOS INFANTIS

Estudei na Escola Teresa de Lisieux da alfabetização ao 3º ano colegial, ou melhor, até a metade do 3º ano, quando tive uma séria discordância com a coordenação do 2º grau e resolvi, mesmo sob o protesto da turma que eu oficialmente representava e com o apoio de todas as outras do 1º e do 2º anos, terminar meus estudos em outro colégio. O fato foi que, mesmo tendo fracassado na tentativa de fundar o grêmio estudantil, acabei me tornando, informalmente, uma espécie de conselheiro dos outros líderes de sala. Recorrentemente, minhas aulas eram interrompidas com um “com licença, professora, poderíamos falar com Lubisco?”. E lá ia eu, feliz da vida por sair da sala e com o ego inflado, aconselhar meus pares. Para um garoto de 17 anos, isso era fantástico!

O meu ingresso no Teresa não foi exatamente um passeio no parque. Eu estudara na pré-escola 123 Jardim de Infância, que funcionava em uma ampla casa construída para a função na Rua Guillard Muniz, mesma rua em que morava minha Vó Diva. Sair deste aconchego para uma escola com aproximadamente três mil alunos foi assustador. Chorei durante as primeiras semanas de aula, toda vez que minha mãe me deixava lá. Imagino a firmeza que Dona Nídia precisou ter para não fraquejar e deixar o filho esperneando nos braços da Tia Terezinha.

Tia Terezinha foi minha alfabetizadora. Pequenina – talvez por isso nos sentíssemos tão confortáveis com ela –, nunca levantava a voz. Pacientemente, todos os dias, fazia a lista da merenda, chamando um a um, anotando os pedidos e recolhendo o dinheiro. O recordista mundial entre os pedidos era o “sonho com guaraná”. Havia o time da “banana real com Coca-Cola”, mas era minoria. Se algum partidário do combo nº 1 ousasse pedir outra coisa, logo vinham os olhares de “como assim, banana real?! Como assim?!”...

Entre um lanche e outro, nos alfabetizávamos! Lembro claramente do livro A Casinha Feliz. Toda a minha geração conheceu Vavá, Vevé, Vovô, neném, a vaquinha Mumu e o galo Cocó. O método se baseava no reconhecimento das letras, a união delas formando sílabas e, finalmente, a justaposição dessas forjando o milagre da palavra. Aprendíamos, então, a ler assim: m-m-ma, m-m-mãe, mamãe. Era massa. E, por fim, orações completas eram introduzidas (lá ele): Vavá leva neném? Neném leva Vavá? Surreal! Surreal!

O processo de aprender a ler é fascinante. Escraviza-nos. Só percebi isso quando, assim que voltei da Alemanha, fui morar em um quarto e sala com Lua, ali no Itaigara. Por coincidência, o nosso vizinho de porta era um velho conhecido da minha, na época, cônjuge. Em pouquíssimo tempo, Edinho e eu já éramos amigos e as duas famílias viviam de portas abertas, transformando os “apertamentos” em um confortável dois quartos. Edinho já era casado com Mima e tinham, há seis anos, uma filhinha chamada Julia – para nós, Jujuba. Hoje, Jujuba tem 10 anos e um irmãozinho de 5 meses, Vitor.

O almoço de domingo, mais que uma tradição, transformara-se num momento de lazer. Apesar do convívio diário, sentar à mesa, um servir ao outro, discutir questões que nos afligiam ou simplesmente jogar conversa fora sempre pareciam novidade. Mima, vez por outra, fazia uma macarronada com um molho de queijo provolone, gorgonzola, prato e parmesão. Uma delícia. O único problema era que, após a ingestão dessa bomba, ninguém conseguia fazer nada mais. Afundávamos no sofá e, prostrados, assistíamos a alguma coisa na TV até algum de nós recuperar o mínimo das funções vitais e conseguir balbuciar algumas quase ininteligíveis palavras e, assim, retomar a conversa que começara antes da primeira garfada.

Em um desses encontros dominicais, já estávamos almoçando quando Mima lembrou: “poxa, Lubis, não é light, mas tem Coca na geladeira. Quer?”. Ponderei por milésimos de segundos e, baseado no fato de que, excepcionalmente, não estávamos comendo a bomba, aceitei.

Mima se levantou, deu a volta no balcão que separava a cozinha da sala, abriu a geladeira, pegou a Coca-Cola, fechou a geladeira e trouxe-a até a mesa. Lua e Edinho, que conversavam animadamente, continuaram se entretendo. Eu, por acaso, percebi Jujuba assistindo, como se tudo acontecesse em câmera lenta, à chegada da garrafa pet na mesa. Olhar vidrado, mal piscava... Seguia com os olhos aquele totem de plástico à medida que Mima, educadamente, servia a todos. Juntei-me à conversa e, segundos depois, aqueles segundos que parecem eternidade, percebi que Ju permanecia hipnotizada. Parecia estar em uma dimensão paralela onde só havia ela e o rótulo vermelho-sangue da garrafa. Foi então que, repentinamente, interrompeu os adultos:
- “O que indústria brasileira?”
Como assim, o que é indústria brasileira?! Ela estava lendo! L-l-len, d-d-do, lendo.

Além de ler, desenhar assustadoramente bem e, já aos seis anos, saber distinguir música ternária de quaternária, Juju tinha um passatempo que eu, particularmente, adorava. Vez por outra, batia lá em casa e “Lubis, posso passar o aspirador de pó?”. Obviamente, eu jamais negaria aquele pedido, apesar da frase “trabalho infantil é crime” permanecer martelando a minha cabeça! Alguns minutos e zapt!, criança feliz e sala limpa! Maravilha! Nada como unir o útil ao agradável.

Entre as outras milhares de histórias que lembro, uma das minhas prediletas é justamente a que todos os meus amigos que têm filhos fazem aquela cara de “hum... sei exatamente como é isso” ou de “porra, como nunca pensei nisso antes!”.

Lua, que sempre teve um jeito incrível para lidar com criança – acho que está no gene, pois Anni, minha ex-sogra (se é lá que ex-sogra existe) tem um ímã de pimpolhos –, adorava, quando tinha tempo, ficar brincado com Ju. Era impressionante a maneira com que elas se conectavam. Se não fosse pela diferença de altura e pelos rompantes de adultez, era impossível saber qual das duas tinha 6 anos.

Era comecinho da noite de um domingo, provavelmente, e as duas já brincavam há horas. Eu, no desconfortável-sofá-cama-que-a-nossa-grana-permitiu-comprar, olhava a TV, quando fui surpreendido pelo seguinte diálogo que vinha da rede na varanda:
- E então, Juju, quer brincar de quê agora?
- Vamos brincar de descansar?
- Oxe, e como é que brinca disso?
- Assim, ó: a gente fica aqui deitada e descansa.
- Uhum... Sei, sei... (Pausa...) E quem te ensinou essa brincadeira, Juju?
- Meu pai!
Como assim, Edinho?! Como assim?!

Texto revisado por Paula Berbert.

RUA GUILLARD MUNIZ

Minha vó Diva foi vó com “V” maiusculoso. Nos levava à pracinha e passávamos a tarde brincando na areia. Lembro dela com os nossos pares de sapatinhos pendurados nos dedos quando andávamos de volta para a casa dela, na Rua Guillard Muniz, Edifício Cerejeira, apartamento 101. Hoje, ela mora com o filho em função da fragilidade de sua saúde.

De volta ao apartamento, tomávamos banho e íamos direto para o quarto da TV, enquanto minha vó preparava nossa janta. Cada um tinha seu próprio pratinho. Eram todos de sopa, para evitar catástrofes no sofá, já que jantávamos lá, acomodadinhos, assistindo, provavelmente, à novela das seis. O meu, recordo, tinha uns detalhes em cor de abóbora e amarelo que talvez, caso minha memória não esteja tão ruim quanto a situação do Galícia, fossem florezinhas.

Todo mundo sabe que comida de vó é a melhor do mundo. A da minha era a melhor do universo universal. Quando tive hepatite e sofria com as inúmeras restrições alimentares, somente ela dava um jeito de, mesmo sem utilizar uma gota de gordura, tornar a comida saborosa. Fazia bolos “de comer rezando” e, para a nossa diversão, nos deixava lamber a tigela da batedeira, pegar as sobras da massa de pastel caseiro e brincar com a máquina de fazer macarrão. Sim, ela tinha uma máquina de fazer macarrão!

Ainda não sei se a viúva de vovô Eduardo era mágica ou alquimista. Corajosa, com certeza, era. Após o falecimento do meu avô – que não chegou a conhecer nenhum dos netos –, mesmo contra os bons costumes e as expectativas em relação a uma senhora viúva, contraiu segundas núpcias... e com um homem mais novo. Como assim, com um homem mais novo?! – devem ter pensado as mais recatadas.

Hoje, percebo que D. Diva, além de fazer doces, costurar, pintar, cuidar dos netos e ser corajosa, tinha uma paciência de Jó. Não devia ser nada fácil administrar três diabos da Tasmânia brigando. E, além do mais, toda vez que pedíamos, repetia a mesma história nonsense como se fosse inédita.

Nana: Vó, conta aquela história?!
Eu: É, é, conta!
Kika (com pouco mais de um ano): anskznchbdhaoenshabnxckabdjfidba.
Diva: Era uma vez três: um polaco e um francês. O polaco puxou a espada e o francês se arrepiou. Quer que eu te conte outra vez?
Nana e eu: Quero!
Kika: ushnkaiolanueo!
Diva: Era uma vez três: um polaco e um francês. O polaco puxou a espada e o francês se arrepiou. Quer que eu te conte outra vez?
Nana e eu: Quero!
Kika: kaniolhnajksoueam!
Diva: Era uma vez três: um polaco e um francês. O polaco puxou a espada e o francês se arrepiou. Quer que eu te conte outra vez?

Ai, ai, vó Diva!


Texto revisado por Paula Berbert

EROS

Ontem à noite, quase hoje, Déa entrou, do nada, no msn e sumiu como o Mestre dos Magos...

Andrea diz:
lubis....

lubisco diz:
oi, déa...

Andrea diz:
como se diz "eu te amo" em alemão?

lubisco diz:
Ich liebe dich

Andrea diz:
acho que daria um beijinho no rosto, um abraço apertado e desenharia um coração no ar com as mãos...

lubisco diz:
...

Andrea diz:
que difícil amar em alemão.

lubisco diz:
é difícil amar em qualquer língua, déa, em qualquer língua!

CONCORDÂNCIA

A formação dos Estados Unidos da América, “aquele pedaço de terra compreendido entre o México e o Canadá que deveria ser oceano”, como diria meu amigo Cyro, está intimamente ligada à perseguição religiosa sofrida pelos peregrinos, ainda na Inglaterra. Por isso, provavelmente, como sugerem diversos estudos, os estadunidenses acreditam ser uma nação predestinada, um povo escolhido por Deus, o que lhes confere o divino direito de intervir onde e quando for necessário em nome dos valores elevados que julgam defender. Tem sido assim no Iraque e no Afeganistão, hoje, assim como foi apoiando as sangrentas ditaduras na América Latina nos anos 60 e 70, majoritariamente. Sabemos dos casos de tortura e morte, aqui no Brasil, de pessoas que simplesmente desapareceram ou foram “suicidadas”, como o jornalista Vladimir Herzog, o Vado.

Essa brutalidade patrocinada pelo Uncle Sam ganhou proporções ainda maiores na Argentina e no Chile. Na terra de Maradona, o último golpe militar – 1976/1983 – deixou um saldo de 9 a 10 mil mortos e desaparecidos, segundo os dados oficiais. Porém, as organizações de direitos humanos, inclusive as Mães da Praça de Maio, contestam, afirmando que esse número pode chegar a 30 mil. No Chile, onde Salvador Allende fora eleito o primeiro presidente sul-americano socialista por voto direto, o General Augusto Pinochet, com a bênção da Estátua da Liberdade, assumiu o poder em 1973 e, até 1990, garantiu que 3.197 pessoas sumissem ou desaparecessem.

Da mesma forma que diversos brasileiros deixaram a pátria para morar em outras terras, chilenos e argentinos também o fizeram, como é muito comum em ditaduras violentas como as que assolaram o hemisfério sul do nosso continente americano. Conheço um rapaz de trinta e poucos anos que, em meados dos 80, se mudou para Salvador com a mãe e a irmã caçula para esperar pelo pai, também chileno, mas que por um motivo ou outro viria mais tarde. Nunca chegou.

A partir dos anos 90, houve uma nova leva de “hermanos latinos” chegando ao Brasil por um motivo bem mais leve: o futebol. Na realidade, ainda nas décadas anteriores já havia jogadores de outros países sul-americanos fazendo história por aqui: o argentino Ramon Rafanelli comandou a zaga do Bangu nos idos de 1949; o paraguaio Romerito foi campeão brasileiro pelo Fluminense em 1984; o goleiro uruguaio Rodolfo Rodriguez jogou no Santos e, no final da carreira, no Baêa minha porra, quando protagonizou, em 1993, uma cena patética na derrota de 6X0 contra o Cruzeiro, do então magro Ronaldinho.

Foi exatamente um estrangeiro que me fez retornar ao estádio Octávio Mangabeira, mais conhecido como Fonte Nova, após anos apenas assistindo futebol pela televisão. Arce, lateral direito paraguaio, fez história na seleção do seu país ao lado do zagueiro Gamarra, considerado por muitos um dos melhores na sua posição em todos os tempos, chegando a passar a Copa do Mundo de 1998, quando foram eliminados pela França na prorrogação, sem fazer uma falta sequer! Infelizmente, Gamarra defendia também o Inter de Porto Alegre, maior rival do meu Grêmio – duas vezes campeão brasileiro, três da Copa do Brasil, duas da Libertadores e uma do mundial interclubes. Arce, por sua vez, sob o comando de Felipão, dominou a lateral direita por anos, até ser contratato pelo Palmeiras, onde continuou sua carreira de sucesso. Pois bem, eu queria ver Arce jogar.

Eu batia baba no campo de barro do Clariana, um edifício aqui do Candeal onde Pedro Pererê e Mistério, da extinta Inkoma – banda de que Pitty também fazia parte –, moravam. Já joguei nos mais diversos lugares: asfalto, corredor de colégio, garagem, ladeira... mas esse campo deve ser o único do planeta que não tem nenhum lado paralelo. À primeira vista, parece um trapézio, por isso o time vencedor sempre escolhe atacar para a linha de fundo mais estreita. Dá um sufoco na defesa adversária. Entretanto, com um olhar mais apurado, percebe-se que as linhas laterais se encontram antes do infinito. Surreal!

Brandão, pai do melhor volante que já vi jogar, Emílio, marcava presença todos os sábados, estando sempre entre os primeiros a chegar, o que lhe conferia o direito de participar do primeiro baba. Este durava 20 minutos e não tinha limite de gols, enquanto os seguintes eram no esquema 15 minutos ou dois gols. Estas regras foram estipuladas para evitar confusões, pelo nosso COB, Comitê Organizador do Baba, presidido por Glauco e assessorado pelo próprio Brandão e por Doutor Valter, um boliviano que, no auge de seus quase 70 anos, jogava conosco e corria mais que muito garotão. E, já no final da tarde, na resenha na frente da barraquinha tomando água, desculpava-se: “poxa, Lubisco, naquele gol do último baba, não consegui acompanhar Jean (na época com 18 anos). É que joguei tênis pela manhã e já tava cansado.” Como assim, Doutor Valter, como assim?!

Foi Brandão, fervoroso torcedor do Bahia, sabendo da minha ausência nos estádios por tantos anos, quem me convidou para assistir BahiaXGrêmio pelo Campeonato Brasileiro de 1996. Mesmo tendo que ficar à paisana na torcida do rival, eu veria Arce. Disse sim!

Vesti uma bermuda azul, uma camisa branca e, por baixo das meias azuis, outras com o símbolo do tricolor gaúcho, time com história nefasta de racismo que, na sua origem, não contratava negros. Um nojo! Já tentei, mas não consigo desamar meu time! Como assim, Lubisco?! Como assim, me pergunto! Idiossincrasias, me respondo.

A Fonte Nova com seus aproximadamente 30 mil torcedores calou-se com o primeiro gol do Grêmio, assinalado por Carlos Miguel, antes dos 10 minutos do primeiro tempo. O silêncio nas arquibancadas contrastava com os berros de euforia ecoando dentro de mim (lá ele). No último minuto da primeira etapa, ainda, emudeci diante daquela massa sonora que comemorava o gol de empate. Como assim, Danrlei!? Que frango, porra. “Até minha avó com todo o reumatismo dela pegava essa bola”, resmunguei quase calado!

No segundo tempo, o Esquadrão de Aço parecia ter 22 jogadores. Eles atacavam por todos os lados o tempo todo. Só não marcaram duzentos gols porque a pontaria dos atacantes era sofrível e porque Danrlei, finalmente, fez jus à camisa número 1 e se redimiu praticando defesas indescritíveis. Àquela altura, eu torcia mais para o árbitro dar o derradeiro apito do que para o meu time. Foi quando, faltando dois minutos para o final do jogo, da intermediária, Arce acertou um petardo no ângulo esquerdo de Jean. “É goooooool!!!! Putaquepariu, golaço! É Grêmio, minha porra!”, gritei calado.

O silêncio dos torcedores durou somente até o término da partida. Depois disso, eu presenciei uma catarse coletiva. Gerações e mais gerações do técnico foram ofendidas. Jogadores tiveram sua masculinidade colocada em xeque, assim como foram jurados de morte pelos meus companheiros de arquibancada mais exaltados. Eis que surge, no meio da multidão, um senhor grisalho com ar apaziguador balançando levemente os braços abertos, com as mãos espalmadas para baixo e gritando:

- Pessoal, CALMAM, pessoal. CALMAM!


Texto revisado por Paula Berbert