AEROMEDO


Sabe quando uma canção invade sua cabeça e você fica cantarolando a vida toda? Por mais que goste da música, depois de um tempo ela enche seu saco... e quando você não se limita a cantar mentalmente, enche o saco de quem te rodeia.

Amanheci cantando: “Você tem fome de quê? Você tem sede de quê?”. Para quem não sabe, e prefiro não saber se você não sabe, Comida foi composta por Arnaldo Antunes e faz parte do Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas, do Titãs, álbum de 1987, quando eles ainda não faziam só música de autoajuda tipo:

“Devia ter amado mais
Ter chorado mais
Ter visto o sol nascer
Devia ter arriscado mais
E até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer

Queria ter aceitado
As pessoas como elas são
Cada um sabe a alegria
E a dor que traz no coração”

Daniel Castelani, aos 16 anos, escreveu coisas muito melhores, posso te garantir!

Bem, mas o pior é que somente a mesma frase martelava minha cabela... como um disco arranhando. Daí, sei lá porquê, percebi que, na verdade, estava cantando: “Você tem fome de quê? Você tem MEDO de quê?”.

E então? VOCÊ TEM MEDO DE QUÊ?

Medo pode ser bom... pode ser excelente, se consumido em doses corretas. É justamente este sentimento que nos torna mais prudentes. Quer um exemplo? Em 2000 comprei minha primeira motocicleta. O medo que tinha então é exatamente o mesmo que ainda tenho toda vez que vou pilotar. Pode ser só para comprar um pão ali na esquina, meu medo está sentado no carona, abraçadinho em mim. É ele que constantemente me lembra: “Man, o pára-choque é o asfalto e o airbag é o peito. Se ligue!”.

“Mas porque você anda de moto?”, me perguntam sempre. Bem, combinação da adrenalina de estar sobre duas rodas com a satisfação de superar o medo é INDESCRITÍVEL!

Há, por outro lado, aquele medo ruim... que causa angústia, que paralisa, ou que muitas vezes nos leva a reações impensáveis nas Condições Normais de Temperatura e Pressão.

Tenho medo de gafanhotos. “Ah, PQP! Que ridículo! De gafanhotos?!”

É. De gafanhoto, sim. Até porque gafanhoto é um enviado do Coisa Ruim, em forma de inseto. Joel, capítulo 1, versículos 5 a 7, me dá razão:

“Despertem e chorem, vocês, ébrios, porque as vinhas estão destruídas e perdeu-se todo o vinho! Um vasto exército de gafanhotos cobre a terra; é demasiado numeroso para se poder contar; têm dentes tão pontiagudos como os do leão! Arruinaram as minhas vinhas e descascaram as figueiras, deixando os troncos e os ramos nus e brancos.”

Viu? Não foi um exercito de borboletas! Foi de Gafanhotos, caralho! GAFAN – FUCKING - NHOTOS!

Veja só, meu medo até nome tem: Acridofobia. E me faça o favor de não confundir com Entomofobia, que é o medo de insetos em geral. Humpf, insetos em geral! Medo de Joaninha... até parece!

 

 

Mas, nem todo medo é justificável como o meu medo por esse inseto asqueroso enviado pelo capeta para aniquilar a vida na terra!

Deixa fazer uma observação importante antes de continuar com a história. Mesmo podendo soar engraçado, e sei que estou tratando do medo aqui de maneira jocosa, vale lembrar que fobia é algo sério e em muitos casos é necessária ajuda profissional. Por isso, na vida real, vamos exercitar a empatia e ter cuidado, beleza?

Como ia dizendo: nem todo medo é justificável como o meu medo por esse inseto asqueroso enviado pelo capeta para aniquilar a vida na terra!

Lembra da minha outra crônica Los 3 Amigos e 2 Cus, onde afirmei que fazer listas de TOP 5 era "além de bobo, sacal"?  Pois vou morder a língua e farei minha lista de TOP 5 medos mais surreais:

11. Caetofobia, ou medo de pelos. Tem gente que contrata alguém pra lavar o seu cabelo só pra não pegar nas madeixas!

22. Eisoptrofobia, ou medo de se olhar no espelho. Huuum... conheço uma pá de gente que  compreenderia se sofresse deste medo.

33.  Filemafobia, ou medo de beijar. Isso mesmo, medo de beijo. (Muah!)

44.   Deipnofobia, ou o medo de jantar com famílias ou amigos. Fico me perguntando: Tomar café da manhã pode? E almoço?
  5. Onfalofobia, ou medo de umbigos. Oi? Não sem nem por onde começar!


Contudo, o melhor de todos não está na lista por ser Hors concours: É o medo de palavras grandes. Se o cabra mora na Alemanha, tá fodido! Só pra te dar uma ideia, quando vivi lá, a rua em que morava era Neustadtcontrescarpe. 20 letras, mermão!

O melhor fato deste medo não é o medo em si. Mas a ironia do nome designado para definir o medo: Hipopotomonstrosesquipedaliofobia

O “cotchado” lê e, escaploft, cai morto!

Outra ironia deste tipo é... sabe quando a pessoa pronuncia os “esses” com a língua entre os dentes e soa como o som de TH em inglês, tipo THINK, THANK? Pois bem, em inglês o nome deste distúrbio é uma grande sacanagem: Lisping. Ou, para que sofre de Lisping, /´lɪθpɪŋ /.

Palavras me encantam. Sei que já falei disso... é até um clichê já. Mas clichês são clichês justamente por serem repetidos. E se são repetidos, algum motivo há, né não?
Por exemplo, eu acho sensacional a maneira que nós aportuguesamos a pronúncia de algumas palavras estrangeiras, ao invés de traduzi-las como, por sinal, fazem alguns países espano hablantes.

Quando os The Bealtles”, como diria Caetano Veloso, lançaram A Hard Day’s Night, em 1964, o álbum chegou à querida Argentina como “La Noche de Un Día Duro” e Mariah Carey na Espanha é Maria “Karéi”.

Já naTerra Brasilis, a gente vai na Méqui Dônaudis” pra comer “Bígui Méqui” só por que lá não vende Rótchi Dógui”. Se vendesse seria “Méqui Rótchi Dógui”;  Na esfera tecnológica, a gente compra um “máuzi” pra usar no “nôti búqui” que, por sinal, pode dar problema no “sófti ou no “Rárdi ”..e por aí vai. A lista é infindável.

Nome de artista? “Brédi Pítchi” “Caterina Zêta Djônis”, Tôn Rênquis, Dênzeu Uóshitu, “Iscárletchi Iorrânsõn”, “Quêitchi Uínslethi”...

Mas, quando o assunto é nome de banda... deixa te contar uma história.

Em meados dos anos 1990, um bróder de Salvador completamente aficionado pelo Aerosmith, digo, “Aeroismítch” foi até à finada A Modinha comprar o novo lançamento de sua banda predileta. A Modinha era o paraíso dos aficionados por música... não necessariamente pela qualidade da loja, mas pela carência em variedade deste tipo de estabelecimento naquela época. Chegando lá:

- Opa, beleza, man? Posso te ajudar?
- Beleza, você tem o novo DISCO do “Aeroismítch”?
- Rapaaaz, do “Aeroismítch”, tenho não. Mas, se você quiser, tenho do “Aeromêidein”.


O NARIZ


Pela segunda vez, abro espaço no meu blog para a publicação de outra pessoa. A primeira, foi uma carta de Cris, minha amiga-irmã. Agora, não coincidentemente, é também meu amigo outro amigo-irmão: Daniel Castelani.


O ano era 1994. Eu, então com 18 anos, estava prestes a me tornar pai... que dia louco aquele 1º de fevereiro. 


Fran tinha ido ao obstetra fazer a última consulta pré-natal e soube, durante a consulta de rotina, que precisava ir ao hospital dar a luz: Bia queria nascer naquele dia.


Eu estava em casa e recebi a ligação do meu sogro dizendo que Fran estava a caminho do Hospital Salvador. Fiquei atordoado, pois não esperava que Bia fosse nascer naquela terça-feira. Não tinha sequer habilitação ainda, ou seja, não poderia pegar o carro de meu pai.


Já estava me preparando para enfrentar a longa espera pelo ônibus, que naquela época era coisa rara no bairro distante onde morava. Mas então, Carlos,o pai de Fran, ligou novamente dizendo que passaria lá em casa para irmos juntos até o hospital, pois, para Fran ser internada, precisava de um responsável... ela tinha apenas 17 anos.


E foi assim: eu e  meu sogro fomos assinar os documentos da internação. Cuidamos das burocracias, eu fiquei com ela e ele voltou para o trabalho depois de tudo resolvido. 

            Avisamos a todo mundo - amigos e parentes - que Fran estava prestes a dar a luz, passamos o número do quarto e ficamos aguardando o Dr. Paulo, que além de ser o médico que faria o parto era também, praticamente, um tio para Fran.


Um detalhe importante a ser dito é que eu não conhecia a família da Fran pessoalmente, apenas seu pai e irmãos. Estávamos então eu e Fran, nervosos, praticamente adolescentes, no quarto do hospital, quando ela me advertiu: “meu avô é um homem muito sério e bravo. Quando ele chegar, não se espante com o tamanho do seu nariz. É muito grande, mas, de maneira alguma, chame atenção pra isso, tá bem?”. Pensei: “claro, sem problema! Já vi pessoas narigudas na vida, nada que eu não possa controlar, afinal, meu sobrenome é Castelani, e a italianada é detentora de pródigos narizes.” Já era acostumado a gente “dal naso grosso”. Então, por que iria rir?


Eis que, algum tempo depois, chega ao quarto Seu Daniel (sim, o avô de Fran se chama Daniel também).  O nariz dele começou a adentrar o quarto alguns segundos antes. Sério, meus amigos, que nariga era aquela?! Nunca tinha visto algo daquele tamanho. Qualquer coisa que você esteja imaginando agora não faz jus ao tamanho daquela “ventana”. Aquilo era um obelisco gordo na cara do avô de Fran. Parecia um cupinzeiro destes que ficam nos pastos.


Claro que tive que sair do quarto! Mas, não sem antes cumprimentá-lo com muito esforço para não rir na cara do velho.

           
Fiquei alguns minutos lá fora. Fui fumar um cigarro pensando no que acabara de ver, (naquela época se fumava em corredores de hospitais), e pensei: “preciso me vingar.”

            As pessoas começaram a chegar: as tias de Fran, alguns amigos... até que chegou um grande amigo meu, Eduardo Lubisco.


Seu Daniel saíra para comprar algo e voltaria em seguida. Daí, pensei: “Eis a minha oportunidade.”


Virei pra ele e sussurrei: “Du, vou te pedir um pouco de discrição quando o avô de Fran chegar. Ele é um senhor muito sério, trabalhou muitos anos com os militares durante a ditadura, é bem linha dura mesmo, e tem um nariz bem grande. Por favor, não faça nenhuma menção sobre seu nariz. Ele não tolera brincadeiras.”


Ele me respondeu na mesma hora que: “claro, não há problema; fique tranquilo, não precisava nem falar nada”.


Eu ,por dentro, já estava rindo.


E foi assim: Seu Daniel entrou pela porta, e não tive nem tempo de olhar para o lado: Du já estava saindo sem nada dizer. Ao chegar à porta, olhou pra mim com o riso nitidamente prestes a explodir e me chamou para irmos fumar um Marlboro vermelho.


Depois de uns quinze minutos de gargalhada, sem a menor condição de diálogo, Du me “xingou”, como somente os amigos podem fazer, e já começou a elucubrar como se vingaria também.


“Dani, teu pai ainda não chegou não é?”. Entendi imediatamente sua intenção e, sorrindo, respondi que não.


Antes de continuar, preciso contar uma coisa: no final do corredor dos quartos, havia uma janela onde os fumantes costumavam pitar. Havia um cartaz com um cinzeiro bem sujo cheio de bitucas e, com letra pretas bem pesadas, o dizer: “Quem fuma fica com a boca cheirando à cinzeiro!”. Ao ler isso, eu e Du rimos um monte.


Acabamos nosso cigarro e voltamos ao quarto. Fran já tinha ido para a obstetrícia, o avô e tias dela tinham ido ao shopping comprar um presente para Bia ou algo assim. Ficamos eu e Du batendo papo e esperando notícias. Então, entrou uma enfermeira para verificar se estava tudo em ordem e, em tom de reprovação, nos perguntou se estávamos fumando dentro quarto. Respondemos que não,  olhamos um para o outro e dissemos simultaneamente:  “Quem fuma fica com a boca cheirando à cinzeiro”.


Ainda esperamos ali por um bom tempo, pois Fran não entrava em trabalho de parto, apesar de já ter dilatação. Dr. Paulo estava decidindo se esperaria mais ou  faria uma cesariana.


Chegaram meus pais. Estavam emocionados, afinal seu filho recém-saído das fraldas estava prestes a transformá-los em avós.


 Após passar as informações e tranquilizá-los, eu e Du nos aproximamos de meu pai e começamos com a preparação: “Você vai conhecer o avô de Fran. Ele é um senhor. muito austero e tem um nariz bem grande. Não faça nenhum comentário sobre o nariz, ele fica muito bravo.


Pronto, estava armada a arapuca: mais uma vítima! E não deu outra, foi Seu Daniel entrar pela porta para na sequência sairmos às pressas, meu pai, Du e eu.


(Detalhe: anos depois, descobri que o apelido de Seu Daniel era Snoopy.)


Após boas gargalhadas lá nos corredores, meu pai, Du e eu fizemos várias considerações sobre a napa do avô de Fran e voltamos ao quarto para aguardar as notícias.


A verdade é que toda essa história sobre o narigão serviu para quebrar um pouco do meu nervosismo.


Finalmente notícias! Fran estava indo para cirurgia. Dr. Paulo tinha decidido pela cesárea.


Minha mãe, as tias da Fran, Lubisco meu pai e eu ficamos aguardando.


O berçário ficava no andar imediatamente superior ao quarto, e quando a enfermeira veio dizer que Bia estava nascendo, todos foram pegar o elevador para ver a neném recém parida... todos menos eu. Não sei o que me deu. Eu estava nervoso e com medo ou sei lá o quê.


Assim que todos entraram no elevador,  me arrependi e subi as escadas correndo tanto que cheguei antes deles. Em poucos segundos, uma enfermeira veio com Bia, ainda suja, chorando e linda.


Que dia, meus amigos, que dia...



Texto revisado por Eduardo Lubisco

LOS 3 AMIGOS E 2 CUS

Quando assisti Alta Fidelidade, no cinema, vale ressaltar, adorei. O filme tem um punhado de gente massa: John Cusack, Catherina Zeta-Jones, Tim Robbins e Jack Black que, por sinal, faz uma versão fodástica de uma canção de Marvin Gaye.

Calma lá, não se preocupe. Não vou transformar essa crônica em uma crítica de filme. Jamais ousaria, principalmente depois de ter acompanhado a coluna de, e conhecido pessoalmente, o saudoso João Carlos Sampaio.

Mas, há um detalhe importante desta película que preciso comentar.

Ao longo da história, Rob, o personagem de Cusack, e seus amigos fazem diversas listas de TOP 5.  Desde de top 5 melhores cantores ou cantoras, até top 5 canções para se ter numa ilha deserta.  Contudo, a minha lista favorita neste filme é "top 5 canções sobre a morte: um tributo ao pai de Laura", a ex de Rob!

É simplesmente genial homenagear o ex-sogro FDP de maneira tão singela.

Saí do cinema fazendo zilhares de listas na minha cabeça. Logo de cara, percebi que era difícil escolher 5 melhores quaisquer coisas, pois isso significaria deixar uma caralhada de sei-la-o-quês maravilhosos de fora!

Ainda assim, me diverti. Mas, com o tempo, mano velho, não somente perdi o interesse pelo desafio, mas comecei achar bobo. Hoje, estas listas de melhores do ano, melhores do mundo, melhores do bairro, melhores do que a puta que pariu me soam, além de bobas, sacais. Na verdade, entre todas as listas, ou melhor, entre todas as perguntas desse tipo, a mais inútil é “qual a melhor banda de todos os tempos?”. Sabe porque? Por que a resposta é  óbvia.

Esses dias, estava ouvindo Gil... Para tudo! Isso poderia ser uma poesia completa, né? Basta um título e já está:
PAZ
Esses dias, estava ouvindo Gil...

Mas, não é.

Esses dias, estava ouvindo Gil e me peguei tentando fazer a lista das top 5 melhores canções dele. PQP.FC, missão impossível.  Top 10? Ahahaha. Impossível! Gil é gênio, man.  Ou melhor, Gil é Gênio. GÊ-NIO!

Pra te dar uma ideia do que passei, ao invés de dizer quais foram as músicas incluídas, antes de ter desistido por completo dessa ideia imbecil, vou indicar somente uma canção que ficou do lado de fora: Metáfora.

Como assim, mermão!?  Tá entendendo agora?

Se você saca um pouco de música, a harmonia da primeira parte, só pra ter um gostinho, é mais ou menos assim:  A5+  -  A6 -  A7  - D7M/9  - C#m7  - Bm7  -  D/E -  D5-/E  - A7M/9  -  D/E
Toque aí e veja que lindeza...

E, bicho, que letra é essa? De uma boniteza sem limites.

Uma lata existe para conter algo
Mas quando o poeta diz "lata"
Pode estar querendo dizer o incontível
Uma meta existe para ser um alvo
Mas quando o poeta diz "meta"
Pode estar querendo dizer o inatingível
Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudo nada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível
Deixe a meta do poeta, não discuta
Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora


Dizer isto e significar aquilo é uma arte dominada, mesmo sem necessariamente ter consciência, por quem não vê a vida de maneira literal.


Esses meus dois amigos, de quem falarei agora, são dessas pessoas que brincam com as palavras. Fomos colegas de sala no Teresa de Lisieux, em 1991, e desde então, entre distâncias ora maiores, ora menores, mantemos o bem querer e amizade.


Certa feita, na aula de Português, a nossa professora, Eni, fez um concurso de poesias logo no começo do ano letivo. Foi bem assim: ela escolheu 5 palavras (top 5 palavras para uma poesia?) e nós, os candidatos, tínhamos que terminar um poema em 10 minutos, incluindo os vocábulos predeterminados. O vencedor seria escolhido pela turma, em votação aberta.


Não tenho a menor lembrança do que escrevi. Mas, veja só, eu era mais velho, pois estava fazendo posgraduação no 1°ano colegial, (me achava) mais maduro e já escrevia desde 1990, sistematicamente... seria melzinho na chupeta.


Findado o tempo, cada um leu a sua obra. A minha, claro, era diferentona e subversiva, afinal NÃO TINHA RIMAS! Uau, seria eu o novo Mario Quintana?
O último a ler foi Daniel Castelani, ou simplesmente, O Dani.


 “Pelamordedeus, é toda rimadinha”, pensei desdenhosamente. Porém, a verdade é que acusei o golpe. Tava bem escrita demais. “PQP”, pensei eu realisticamente, “há concorrência.” 

Aos 15 anos, escreveu:


Mergulhar

Mergulhar no incerto
atrair o correto
e não se preocupar.

Não medir palavras
aceitar a doçura
que a vida nos dá.

Só então na brandura
e com muita calma
entrar na cabeça
e então mergulhar.


Bem, O Dani ganhou e, naquele momento, tive a certeza que queria ser amigo dele!


Carlos Paiva Jr., ou posteriormente como ficaria conhecido, Irmão Carlos, era aluno novo. Tocava violão (já tirava os riffs e tudo!), ouvia rock, desenhava bem para caráleo e a mãe era dona de um boteco onde servia o melhor arrumadinho do mundo mundial: O Bar Piscina. O lendário Bar Piscina. Pensei até contar alguma história sobre o botequim. Mas, se te contar, terei que te matar...


Salvo engano, já escrevi sobre isso, mas Irmão mudou minha vida. Eu tava naquela fase Metaaaaaaaaaaaal, saca? O negócio era solo de guitarra. Quanto mais nota, melhor. Daí, um dia ele chega na escola com um LP na mão, me segura pelo braço e diz: Man, você tem que ouvir isso. É foda!


Assim que acabou a aula às 18:30, não fui jogar vôlei na quadra, como era de praxe. Corri pra casa, coloquei o bolachão na vitrola e ESCATAPLOFT! Caí da cadeira com o soco na cara. Era Smells Like Teen Spirit, do Nirvana!


Ainda atordoado, senti uma gratidão enorme por ele ter metido o pé na porta do meu mundinho... e, naquele momento, tive a certeza que queria ser amigo dele!


Irmão se transformou num cara ainda mais espetacular. Além de ser um produtor musical de mão cheia, fundou as bandas Meia Suja, Substância Nociva, Substância e Irmão Carlos e o Catado antes de seguir com carreira solo. Mas, não é tudo. Ele compõe, canta, dança no modo sacolejo para quebrar os pontos de tensão, tem álbuns gravados, canal no YouTube , é um agitador cultural e, periodicamente,  com os seus eventos transforma o bairro onde mora, o Marback, na Meca soteropolitana da música independente !


Pois hoje, os dois, inadvertidamente mesmo, protagonizaram um daqueles raros momentos em que poesia é concretizada na vida real. Não estou dizendo que foi um momento poético... pode ter sido também, afinal, que porra que é poesia?

Lembra Gil? Brincar com as palavras? Então, esses cabras fizeram variações - diametralmente opostas – sobre o mesmo tema para se ofender... tudo com muito amor, claro. Daquele jeitinho que só amigos se ofendem:

- Venha cá, seu sacana!
- Grande filho da puta!
- Porra, te amo, man!
- Eu também.

Hoje escutei uma canção de um programa infantil do final dos anos 1980 e começo dos 1990, e gravei só a guitarra, no próprio celular. Foi uma versão meio punk porque, por incrível que pareça, a versão original tinha um quê de... punk, apesar de não ter nada de punk.

Mandei o áudio da minha gravação para cada um deles com uma mensagem escrita.

Para O Dani:
Escuta aí. Se adivinhar que porra é essa, te dou o cu de Irmão Carlos.

Para Irmão, enviei:
Escuta aí. Se adivinhar que porra é essa, te dou o cu de Daniel.

Num intervalo de uns 15 minutos, a partir de lugares diferentes do Brasil, sem saber que o outro tinha recebido a mesma provocação, responderam:

"Man, não identifiquei. Mas, mesmo se tivesse identificado ia fingir que não. Quero o cu de Irmão, não. Kkkkk"

"Rapaz, sei o que é não. Mas, adoraria saber pra ganhar o cu de Daniel."


UI, MEU CALCANHAR!

Alexandre é um dos caras mais talentosos que conheço. Não me considero uma pessoa de raciocínio lento. Na verdade, via de regra, acho até que consigo ter reações rápidas e divertidas espontaneamente. Mas, perto de Alexandre, sou uma lesma com problemas locomotores e cãibras.

Além dessa capacidade de fazer trocentas piadinhas e trocadilhos por segundo, Alexandre tem uma memória irritantemente precisa, é gato, baterista de primeiríssima qualidade e fundador de duas das mais importantes, pelo menos em minha opinião, bandas de rock soteropolitanas: The Dead Billies e Os Retrofoguetes.

Ainda na minha adolescência, salvo engano em 1993, no meu último ano de colégio, fomos apresentados. Como ele próprio me disse: “Naquela época, você tinha cabelo grande e eu tinha cabelo.”. Eu namorava com uma menina que era prima-de-consideração (vale lembrar que na Bahia todo mundo é parente. E quando não é, arranja uma forma de ser) de Glauber, primo de verdade de Alexandre e também fundador (frontman) dos The Dead Billies, juntamente com Morotó na guitarra e Joe no baixo.

Apesar de mantermos algum contato aqui e ali, nossa amizade se concretizou, na realidade, quando nos reencontramos já mais velhos, na idade adulta... (eu ia escrever “quando nos encontramos já mais maduros, porém acho que realmente não se aplica.) Bem, continuando, Alexandre namorava uma grande amiga de Lali da época de escola, e com a reaproximação delas, nos aproximamos também. Daí, não custou muito para a admiração e bem querer mútuos se transformarem em amizade.

Entre meus poucos leitores, certamente muitos sabem de quem estou falando. Contudo, podem estar um pouco confusos, pois o conhecem pela alcunha de Rex. Sim, senhoras e senhores, o apelido dele não é Alex, Alê, Xande ou nenhuma corruptela de Alexandre. É Rex mesmo. E a identificação é tanta que ele próprio se apresenta como “Oi, meu nome é Rex”.

Uma das reações mais comuns é “Aff, Rex é nome de cachorro”. É verdade!

Quando o então Alexandre era apenas um adolescente com mais ou menos 1,70m e porte físico de faquir que acabou de correr uma maratona, jogava basquete na Escola Técnica, onde, por sinal, se formou em geologia.

O que faltava em altura e força sobrava em agilidade e velocidade. Se você, cara leitora ou caro leitor, já jogou basquete, sabe o quanto são irritantes jogadores rapidinhos e cheios de dribles! PQP FC! Ficam ciscando de um lado pro outro e quando você se dá conta, já estão no garrafão fazendo a bandeja. Que ódio! A não ser, obviamente, se eles estiverem no seu time. Aí, tá tudo lindo.

Pois bem, nesta época em que Alexandre barbarizava, todo peralta, pelas quadras da escola e da Cidade Baixa, foi ao ar nas TVs de todo o Brasil, um reclame de ração canina que se tornou um grande sucesso. Comerciais com bebês ou com filhotes fofinhos de cachorro amolecem o coração de qualquer um, não é verdade? São pura covardia. Não duvido que, na década de 1990, quando as propagandas de cigarro já estavam em franca decadência e, de longe, lembravam as gloriosas peças marquetológicas ao som do Whitesnake, algum publicitário desesperado tenha sugerido um filhote de labrador fumando um cigarro e admirando a natureza selvagem de alguma região montanhosa no inverno...

Mas, a propaganda à qual me referia começava justamente com um filhotinho todo fofo e desajeitado, correndo num gramado em direção à câmera, enquanto uma voz dizia: “Esse é Rex, 5 kg de pura travessura...”.

Eu verdadeiramente entendo as pessoas que argumentam que Rex é nome de cachorro pelo simples fato de que Rex é nome de cachorro. Billy, Bidu, Sansão, Mel, Belinha também. Podemos dizer que não são exclusivos de cachorro, mesmo sendo difícil imaginar um pai e uma mãe dando o nome Bidu para o próprio filho. Se bem que, se há pessoas capazes de nomear o próprio filho de Gorgônio ou de Próculo, certamente há quem ache bacana Bidu pra um bebê.

Mas, gosto mesmo de bichos com nomes criativos ou, pelo menos, inesperados. Lali tinha um chihuahua chamado Gigante. SENSACIONAL! Lembra que falei de uma namorada que era prima de consideração blablablá? Ela teve um cachorro chamado Cachorro. Ágata, uma colega de trabalho, tinha uma gata chamada A Gata. Felipe, filho de Rex, tinha um rato chamado de Nícolas Queijo. Lana, que foi enteada de Rex por muitos anos, teve um coelho chamado Paulo...Paulo, o Coelho! Genial! Genial! (Adivinhe quem sugeriu o nome?) Eu tive uma cachorra, da qual não vou escrever muito pois começo a chorar, falecida há pouco mais de um ano, chamada Helga. A outra, ainda bem viva, é Sofia. Um nome Alemão e outro Italiano... Se tivesse mais uma chamada Yuki, seria praticamente o Eixo.

Ainda sobre nomes de bichos, queria falar de dois especificamente. No século passado, eu fui ao Instituto de Letras da UFBA, às 13 horas. Ao chegar, um filhotinho de gato me seguiu do estacionamento até o portão de entrada. Estava tão preocupado com a prova de LET 367, a famigerada Sintaxe da Língua Portuguesa, que não dei muita atenção. Mas, ao sair, às 17:00h, o filhote me seguiu do portão até o estacionamento, miando incessantemente. Eu, que sou alérgico a gato, pensei: “Caralho, putaquepariu, desgraça! Deixo aí ou pego?”.

Cris, minha amiga-irmã, tinha recém saindo de um apartamento compartilhado, onde havia um gato, para morar só. Pronto, estava resolvido. Tirei minha camisa, enrolei o bicho de forma que não pudesse se mexer muito e eu não precisasse, enquanto dirigia, ter que segurar ele caso quisesse, por exemplo, descer do banco do carona e minha alergia atacar!

Cris adotou o gatinho... mas ainda faltava um nome. Gente, era muito filhotinho mesmo. Sequer conseguimos identificar se era macho ou fêmea. Daí a ideia: PRISCILA. Se fosse fêmea, tava de boas. Se fosse macho, seria Priscila, A Rainha do Deserto.

Priscila deve ter sido o primeiro caso de gato trans da história. Quiçá, o único.

D. Delzira, mãe Cris e apaixonada por bichos de estimação, não demorou muito para levar nossa Rainha para roça que tinha perto de Salvador. Lá, Priscila estabeleceu seu reinado, tendo um verdadeiro harém e ainda botando pra fuder (assim com u mesmo!) em cima dos cachorros que já viviam nas redondezas.

Recordo da primeira vez que fui à casa de Cris e que a mãe dela estava lá. Fui devidamente apresentado. Meu primeiro contato com D. Delzira foi mais ou menos assim:

 - Olá, D. Delzira. Finalmente estou conhecendo a mãe de Cris!
 - Tá.

Social skills não são o forte dela. Mas pense numa pessoa que eu gosto! Uma vez, ela resolveu dar um susto na gente e teve um pirepaque no coração. Da Alemanha, Cris me ligou, explicou a situação e pediu pra eu ficar atento. Oxe, não contei conversa e no mesmo dia fui até a Cidade Baixa, pertinho da casa de Rex, no hospital Sagrada Família onde ela estava internada.

No corredor, encontrei Claudia, braço direito de D. Delzira. “Tá na UTI.”, ela me informou. Na porta da UTI, uma funcionária disse que somente familiares podiam entrar:

- Eu sou sobrinho!

A enfermeira entrou e depois de um tempo voltou. Com certeza, minha farsa tinha sido desmascarada.

 - Leito 07, pode entrar. Higienize as mãos com álcool gel ali, ó.

Assim que a avistei, fiquei mais tranquilo, pois não estava entubada! “Ótimo!”, pensei. Me aproximei da cama, ela ainda permanecia de olhos fechados. Queria que me visse, pois, nessas horas, contato real faz muita diferença. Mas, por outro lado, não queria acordá-la.

Não tenho muita certeza de quanto tempo se passou... 5 minutos, talvez uma hora. D. Delzira abriu os olhos e, ao me ver, começou a chorar! “PQP, não! Pare, por favor! Eu não sei o que fazer!”, minha vozinha interior gritava dentro de minha cabeça. Aquela mulher tão forte, com uma história de vida fodástica, estava ali, toda fragilizada diante de mim...

Segurei sua mão e disse que podia chorar à vontade. Ela chorou. Ao dar uma pausa, eu brinquei:

- D. Delzira, não me venha com essa de dar susto assim não! Pelamordedeus. E, se for dar susto, vá pra um hospital mais perto de minha casa. A gasolina tá muito cara!

Ela riu! E chorou de novo. Daí, ela balbuciou alguma coisa que não consegui ouvir. Me aproximei, e ela falou no meu ouvido:

- Cuide sempre de minha filha!

Pode enxugar as lágrimas aí... Tô fazendo o mesmo!

Voltemos ao meu primeiro encontro com D. Delzira: por onde ela ia pela casa, tinha uma pinscher miniatura preta na sua cola: Madonna.

Isso mesmo, você não se enganou: uma pinscher miniatura preta chamada de Madonna. Cris tentou me explicar algumas vezes a origem do nome... algo relacionado à Rainha do Pop na época da turnê Vogue, saca? Mas, pra falar a verdade, nunca entendi direito... e talvez nem ela!

À primeira vista, Madonna era normal - dentro da escala de normalidade de pinshcer, é claro. As pessoas podiam circular livremente pela casa, sem maiores preocupações. Era até possível esquecer a existência dela.

Porém (sempre tem um porém), bastava andar em direção à porta que Madonna caía pra dentro e atacava o calcanhar de quem quer que fosse... exceto, obviamente, o de D. Delzira.

Dizem que os bichos de estimação, principalmente cães, incorporam traços da personalidade dos donos. Com isso, não estou dizendo que a mãe de Cris saia por aí mordendo o calcanhar das pessoas. Não. Mas, sabe quando está tudo na paz e de repende, não mais que de repente, a pessoa fala ou faz algo que te dá tela azul?

Cris não somente fala alemão, mas já fez dois mestrados nessa língua do capeta e a ENSINA para jovens refugiados em Bremen! Ou seja, minha amiga é gangsta pra caralho. Certa feita, com saudade da mãe, fez o velho interurbano, só para bater papo com D. Delzira e falar um pouco das novidades etc. e tal.

- Mãe, a senhora lembra que eu tava tensa com aquelas duas matérias do mestrado?
- Lembro.
- Tirei nota máxima nas duas.
- Nota máxima?
- Sim, sim. Nota máxima.
- Nas duas?
- É, mãe. Nas duas!
 - As faculdades daí não são muito boas não, né?

 Ui, meu calcanhar!


                                                                                                      Este texto foi revisado por Lali Souza

NO MORE TROUBLE

A greve é uma conquista das classes trabalhadoras do mundo. Muitas vezes, porém, é demonizada quando o exercício deste direito aperta o calo de quem se ilude e acredita usufruir dos mesmos privilégios dos donos dos meios de produção. A classe média brasileira é foda. Se desgraça toda pra ter roupa da moda, desde que os pobres feios não usem o mesmo modelito. Aí, já é hora de se imbuir do espírito solidário cristão e doar parte de suas vestimentas para as pessoas carentes... coitadinhas.  No mesmo movimento consegue-se fazer espaço no armário para as novas tendências, aplacar a culpa e ainda garantir o lugar no paraíso. A classe média é foda.

Em meados do mês de maio de 2018, no auge do ilegítimo desgoverno golpista de Temer, os caminhoneiros entraram em greve e, por aproximadamente uma semana, pararam o país. Nos primeiros dias, progressistas e conservadores se uniram. #somostodoscaminhoneiros era um mantra entoado cotidianamente!

Porém (sempre há um porém), quando faltou combustível pra ricalhada colocar nos carrões, e rango pra entupir a dispensa, a greve já era um abuso, os caminhoneiros viraram vagabundos e estavam a serviço das grandes corporações... Putaquepairu, como assim, mermão?! A classe média é foda.

Primeira vez que fui ao supermercado após a greve, havia um clima de alívio coletivo diante das prateleiras cheias novamente. Principalmente as de hortifrutigranjeiros. Ufa, estávamos a salvo.

“We don’t need no more trouble”, Bob Marley cantava no meu fone enquanto eu escolhia uns pés de couve lindíssimos. Daí, aconteceu uma daquelas coisas que só acontecem na Bahia... na verdade, podem até acontecer em outro lugar, mas como diz Lali: “aqui tem o agravante de ser Salvador.”

Um cara de mais ou menos 1,57m, com a testa em pleno projeto expansionista, e aquela circunferência de cisterna, tocou meu ombro me chamando. Tirei os fones do ouvido e:

- Será que essas couves estavam na greve?
- Ãh?
- Tá muito barata. Será que ficaram muito tempo no caminhão lá?
- Man, só sei que estão lindas.
- É. Também, que se foda. O que não mata, engorda. (Levantando a camisa e batendo na barriga) Eu que o diga. Não morro de jeito nenhum, mas engordo pá porra.
- rsrsrsrs
- Você pesa quanto?
- Oi?
- Você pesa quanto?!
- 94
- Eu peso 92. Mas, vc tem o quê? 1,80m?
- Isso.
- Sabia. Ó pra mim, bem menor com 92. Barril, pai!
- Que nada.
- Você tem quantos anos?
- Oi?
- Quantos anos?
- 44.
- Eu tenho 54, mas tô bem, não tô, não?
- Super! Muito mesmo!
- Tomara que você chegue na minha idade que nem eu... Não aqui (batendo na barriga), mas aqui (olhando no fundo dos meus olhos e apontando para a cabeça).


“We don’t need no more trouble”, coloquei os fones e segui para a abobrinha.