O NARIZ


Pela segunda vez, abro espaço no meu blog para a publicação de outra pessoa. A primeira, foi uma carta de Cris, minha amiga-irmã. Agora, não coincidentemente, é também meu amigo outro amigo-irmão: Daniel Castelani.


O ano era 1994. Eu, então com 18 anos, estava prestes a me tornar pai... que dia louco aquele 1º de fevereiro. 


Fran tinha ido ao obstetra fazer a última consulta pré-natal e soube, durante a consulta de rotina, que precisava ir ao hospital dar a luz: Bia queria nascer naquele dia.


Eu estava em casa e recebi a ligação do meu sogro dizendo que Fran estava a caminho do Hospital Salvador. Fiquei atordoado, pois não esperava que Bia fosse nascer naquela terça-feira. Não tinha sequer habilitação ainda, ou seja, não poderia pegar o carro de meu pai.


Já estava me preparando para enfrentar a longa espera pelo ônibus, que naquela época era coisa rara no bairro distante onde morava. Mas então, Carlos,o pai de Fran, ligou novamente dizendo que passaria lá em casa para irmos juntos até o hospital, pois, para Fran ser internada, precisava de um responsável... ela tinha apenas 17 anos.


E foi assim: eu e  meu sogro fomos assinar os documentos da internação. Cuidamos das burocracias, eu fiquei com ela e ele voltou para o trabalho depois de tudo resolvido. 

            Avisamos a todo mundo - amigos e parentes - que Fran estava prestes a dar a luz, passamos o número do quarto e ficamos aguardando o Dr. Paulo, que além de ser o médico que faria o parto era também, praticamente, um tio para Fran.


Um detalhe importante a ser dito é que eu não conhecia a família da Fran pessoalmente, apenas seu pai e irmãos. Estávamos então eu e Fran, nervosos, praticamente adolescentes, no quarto do hospital, quando ela me advertiu: “meu avô é um homem muito sério e bravo. Quando ele chegar, não se espante com o tamanho do seu nariz. É muito grande, mas, de maneira alguma, chame atenção pra isso, tá bem?”. Pensei: “claro, sem problema! Já vi pessoas narigudas na vida, nada que eu não possa controlar, afinal, meu sobrenome é Castelani, e a italianada é detentora de pródigos narizes.” Já era acostumado a gente “dal naso grosso”. Então, por que iria rir?


Eis que, algum tempo depois, chega ao quarto Seu Daniel (sim, o avô de Fran se chama Daniel também).  O nariz dele começou a adentrar o quarto alguns segundos antes. Sério, meus amigos, que nariga era aquela?! Nunca tinha visto algo daquele tamanho. Qualquer coisa que você esteja imaginando agora não faz jus ao tamanho daquela “ventana”. Aquilo era um obelisco gordo na cara do avô de Fran. Parecia um cupinzeiro destes que ficam nos pastos.


Claro que tive que sair do quarto! Mas, não sem antes cumprimentá-lo com muito esforço para não rir na cara do velho.

           
Fiquei alguns minutos lá fora. Fui fumar um cigarro pensando no que acabara de ver, (naquela época se fumava em corredores de hospitais), e pensei: “preciso me vingar.”

            As pessoas começaram a chegar: as tias de Fran, alguns amigos... até que chegou um grande amigo meu, Eduardo Lubisco.


Seu Daniel saíra para comprar algo e voltaria em seguida. Daí, pensei: “Eis a minha oportunidade.”


Virei pra ele e sussurrei: “Du, vou te pedir um pouco de discrição quando o avô de Fran chegar. Ele é um senhor muito sério, trabalhou muitos anos com os militares durante a ditadura, é bem linha dura mesmo, e tem um nariz bem grande. Por favor, não faça nenhuma menção sobre seu nariz. Ele não tolera brincadeiras.”


Ele me respondeu na mesma hora que: “claro, não há problema; fique tranquilo, não precisava nem falar nada”.


Eu ,por dentro, já estava rindo.


E foi assim: Seu Daniel entrou pela porta, e não tive nem tempo de olhar para o lado: Du já estava saindo sem nada dizer. Ao chegar à porta, olhou pra mim com o riso nitidamente prestes a explodir e me chamou para irmos fumar um Marlboro vermelho.


Depois de uns quinze minutos de gargalhada, sem a menor condição de diálogo, Du me “xingou”, como somente os amigos podem fazer, e já começou a elucubrar como se vingaria também.


“Dani, teu pai ainda não chegou não é?”. Entendi imediatamente sua intenção e, sorrindo, respondi que não.


Antes de continuar, preciso contar uma coisa: no final do corredor dos quartos, havia uma janela onde os fumantes costumavam pitar. Havia um cartaz com um cinzeiro bem sujo cheio de bitucas e, com letra pretas bem pesadas, o dizer: “Quem fuma fica com a boca cheirando à cinzeiro!”. Ao ler isso, eu e Du rimos um monte.


Acabamos nosso cigarro e voltamos ao quarto. Fran já tinha ido para a obstetrícia, o avô e tias dela tinham ido ao shopping comprar um presente para Bia ou algo assim. Ficamos eu e Du batendo papo e esperando notícias. Então, entrou uma enfermeira para verificar se estava tudo em ordem e, em tom de reprovação, nos perguntou se estávamos fumando dentro quarto. Respondemos que não,  olhamos um para o outro e dissemos simultaneamente:  “Quem fuma fica com a boca cheirando à cinzeiro”.


Ainda esperamos ali por um bom tempo, pois Fran não entrava em trabalho de parto, apesar de já ter dilatação. Dr. Paulo estava decidindo se esperaria mais ou  faria uma cesariana.


Chegaram meus pais. Estavam emocionados, afinal seu filho recém-saído das fraldas estava prestes a transformá-los em avós.


 Após passar as informações e tranquilizá-los, eu e Du nos aproximamos de meu pai e começamos com a preparação: “Você vai conhecer o avô de Fran. Ele é um senhor. muito austero e tem um nariz bem grande. Não faça nenhum comentário sobre o nariz, ele fica muito bravo.


Pronto, estava armada a arapuca: mais uma vítima! E não deu outra, foi Seu Daniel entrar pela porta para na sequência sairmos às pressas, meu pai, Du e eu.


(Detalhe: anos depois, descobri que o apelido de Seu Daniel era Snoopy.)


Após boas gargalhadas lá nos corredores, meu pai, Du e eu fizemos várias considerações sobre a napa do avô de Fran e voltamos ao quarto para aguardar as notícias.


A verdade é que toda essa história sobre o narigão serviu para quebrar um pouco do meu nervosismo.


Finalmente notícias! Fran estava indo para cirurgia. Dr. Paulo tinha decidido pela cesárea.


Minha mãe, as tias da Fran, Lubisco meu pai e eu ficamos aguardando.


O berçário ficava no andar imediatamente superior ao quarto, e quando a enfermeira veio dizer que Bia estava nascendo, todos foram pegar o elevador para ver a neném recém parida... todos menos eu. Não sei o que me deu. Eu estava nervoso e com medo ou sei lá o quê.


Assim que todos entraram no elevador,  me arrependi e subi as escadas correndo tanto que cheguei antes deles. Em poucos segundos, uma enfermeira veio com Bia, ainda suja, chorando e linda.


Que dia, meus amigos, que dia...



Texto revisado por Eduardo Lubisco

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