SEU MOREIRA

Para quem hoje, em 2017, está curtindo as dores dos quase, ou recém-passados 40, sabe que MacGyver é aquele cara que conseguia fazer qualquer coisa com um pedaço de fita adesiva, fio dental e um chiclete mascado.

No Condomínio Caminho das Árvores, onde vivi até mais ou menos os 13 anos, grande parte das aventuras dos meninos era inspirada por esse cabra.

Foi somente já adulto que descobri que ele existe, mora em Salvador/BA e é ela: Leal, Simone Leal.

Minha amiga Si é uma daquelas pessoas para se ter eternamente por perto. Além de sempre estar disposta a ajudar, ela verdadeiramente cuida dos amigos.... e ama cachorro, uma característica fundamental no caráter. Na verdade, se eu trabalhasse com Recursos Humanos, recrutando pessoas, a despeito vaga em questão, minha pergunta fundamental seria: você gosta de cachorro?

Lembro de um dia quando ela, numa conversa com Thiago Colares (um bróder que tinha desenvolvido um site que funcionava como um dicionário de acordes para Ukulele) disse ter interesse em aprender aquele instrumento havaiano, de quatro cordas, cuja afinação mais comum é G C E A.

Pouco tempo depois, em mais um fim de semana na casa de praia de Lali, em Jacuípe, com diversas amigas e amigos, com muita comida, álcool, música e risada, lá estava ela, não somente em posse, mas tocando o troço.

Neste mesmo fim de semana, já tarde da noite, alguém comentou,  despretensiosamente, que seria ótimo, naquele calor, uma água de coco. Alguns minutos depois, estávamos bebendo o quê? O quê? O quê? Isso mesmo.  

Como aconteceu? Ora bolas, elementar, senhora leitora, senhor leitor. Simone pegou uma lanterna, foi até o coqueiro anão já lá no cantinho do terreno, colheu sabe-deus-quantos-cocos, levou até o fundo da casa, pegou o facão, partiu, encheu a jarra e a colocou no centro da mesa, na varanda,  com o número exato de copos... tudo isso em um intervalo de minutos. Surreal.

Simone é assim: se já não aprendeu, está aprendendo algo novo. Sua mais recente proeza foi fazer um curso de carpintaria e, dentro de seu apartamento, montar sua mini-oficina, onde já construiu luminárias e fez todos os armários de casa.

Contudo, a maior proeza de MacGyver, quer dizer, de Simone foi ter se casado com Chuck Norris, digo, Nuno Norris, ou melhor, Nuno Ricardo. Esse cabra, nascido em Angola, criado primeiramente em Portugal – de onde tem cidadania – e depois em Salvador, mais especificamente em Brotas.

Brotas deveria estar nos livros didáticos como um acidente geográfico, cuja definição seria: um pedaço de terra cercado de Salvador por todos os lados. Mermão, pense num bairro grande? Pronto, agora multiplique por dois. Multiplicou? Ainda não é Brotas.  

Se você entrar em uma rua errada, certamente cairá em Brotas.

Brotas é um bairro cheio de Bairros. Campinas é Brotas; Acupe é Brotas; Candeal, famoso pela Timbalada? Brotas! Horto Florestal é Brotas; Engenho Velho, Ogunjá, Cosme de Farias, Matatu, Vila Laura? Tudo Brotas.

Inclusive, antes de ser brasileiro, nordestino, baiano, soteropolitano, quem nasce e/ou é criado ni brotas é brotense. Não se espante, você leu certo. É ni mesmo. Brotas é um bairro que tem sua própria preposição na língua portuguesa.

Apesar de atribuírem a origem do Le Parkourt a um francês chamado David Belle, para Nuno, foi criado pelos capangas dele, pulando os muros das casas para roubar fruta “lá ni Brotas.”

Sabe Mad Max? O classicão com Mel Gibson ainda guri, em 1979? Pois bem, filmado ni Brotas. Para Nuno, é a saga do cara saindo de Campinas, ali perto do cemitério Jardim da Saudade, até chegar no Matatu.

Nuno saiu de Brotas há anos, mas Brotas jamais sairá dele.

Assim que fui aprovado no Mestrado em Ciências da Educação no Porto, fui pedir umas dicas ao meu amigo brotense, posto que, além de ter morado em Portugal, tem a perspectiva privilegiada de um sociólogo:

 - Todos os doces tem ovo pra caralho. Ah, e vinho bom é barato.

Não obstante certa ogrisse existente do comportamento cotidiano, Nuno é um cara sensível, sábio e muito, mas muito sensato mesmo (se ele ler isso, esta pode ser a última crônica de minha vida). Por isso, ouvi com muita atenção tudo que me disse sobre a terra de Fernando Pessoa. Talvez, o que mais chamou minha atenção tenha sido sobre a cordialidade do povo.

Quando saltei do avião aqui em Porto, isso não saía de minha cabeça. Era quase um mantra compulsório: povo cordial, povo cordial, povo cordial...

Eu, Lali e Mari, cada um com duas malas de 32 quilos, além das bagagens de mão, precisávamos de um táxi muito grande para fazer uma viagem só e economizar, pois, acima de tudo, viemos com “as nica” tudo contada.

Mari, ainda no saguão do aeroporto, com seu olho de Tandera, avistou um MEGATÁXI lá fora. Oxe, pai, adiantei o passo, cheguei pro motorista - um senhor nos seus 60 anos, com uma bela barriga protuberante,  barba por fazer, camisa ligeiramente apertada com os "botão tudo pocano" - e perguntei se estava livre.

- Estou, sim, ó pá!

Depois de termos, com muito sacrifício e suor, colocado todas as malas no carro, ao abrir a porta para finalmente sentar no banco da frente, por sugestão das meninas, fui surpreendido com o fato de os táxis terem o nome do motorista pintado na carroceria.

Moreira. Estava escrito.

O trajeto entre o Aeroporto Francisco Sá Carneiro e a Rua 1 de Maio, em Vila Nova de Gaia é de 22 km. O trânsito estava livre e Seu Moreira respeitou o limite de velocidade o tempo todo de maneira que não demoramos muito para chegar ao nosso destino.

Com o mantra da cordialidade ressoando em minha cabeça, puxei assunto com Seu Moreira que, por sinal, era bom de papo. Como eu não queria fazer feio, fiz questão de mostrar a Seu Moreira que havia gravado o seu nome. Afinal, lembrar-se do nome me parece um bom sinal de cuidado, né não?

- O inverno aqui é muito frio, Seu Moreira?
- Qual o time que o senhor torce, Seu Moreira?
- Qual o melhor prato típico, Seu Moreira?
- O senhor é nascido aqui no Porto mesmo, Seu Moreira?

Até que, lá pelas tantas, comecei a pergunta pelo vocativo e Seu Moreira riu. Percebi que tinha algo de errado. Titubeante, perguntei?

- Oxe, o que foi?

- Meu nome é Paulo. Moreira é o bairro.



Esta crônica foi revisada por Lali Souza

1 Response to "SEU MOREIRA"

  1. Nelia Barreto Says:

    KKKKKKKKKKKKKK Senhor Paulo é do Moreira e não de Brotas.

    Amei!!!