DA LEITURA

Sendo filho de bibliotecária e ávida leitora, cresci entre livros. Bem verdade que estar rodeado por literatura desde a primeira infância me fez a gostar de ler. Entretanto, seria ingênuo acreditar que a familiaridade com o objeto em si tenha determinado minha paixão pela leitura. O estímulo maior foi a relação que minha mãe ajudou a estabelecer com os sentimentos encontrados naquelas páginas, primeiramente na voz dela e, então, solitário como é o ato de ler.

Um livro guardado não passa de um objeto sem alma, cor ou perfume. Ao ser lido, ganha vida, pulsa, conta histórias e se torna parte da nossa caminhada. Depende de quem lê, e não de quem escreve, a existência do texto.

Ler não se restringe às letras e às palavras. A leitura, em si, pode ser limitada a decifrar e traduzir signos capturado à deriva. E quando a decifração se restringe ao sentido mais basal deste ou daquele signo, o leitor é impedido de mergulhos mais profundos.
Em literatura, a diferença entre se arrastar pelas linhas e alçar voos nas entrelinhas se dá quando o leitor faz parte da obra e, para além dele, ela se completa. Há de se ressaltar que muitas vezes a construção literária jamais será completada mesmo que possamos identificar seu início, meio e fim.

Aprender a ler é interagir com a complexidade do outro; é ser parceiro e inimigo na autoria; é desconstruir e/ou reconstruir; é lançar mão de ferramentas para transformar a maneira de estar no mundo pois quem se entrega à leitura jamais sai ileso.
O aprendiz pode se encantar pela literatura por acaso. Porém, contar com o acaso é muito pouco dentro do ambiente educacional. Ter uma biblioteca linda, somente, não garante o desejo de ler assim como deixar livros com as mais belas capas ao alcance de todos, tampouco.

Promover encontros prazerosos entre aprendizes e textos só é possível quando nós, educadores, além de termos conhecimento das técnicas apropriadas e as aplicarmos consistentemente, somos leitores... não daqueles que leem a palavra, mas dos que leem a vida.

Ler, no final das contas, não é somente uma ação cognitiva. É, sobretudo, um ato social.

1 Response to "DA LEITURA"

  1. Aneri Maciel Pinto Says:


    -Muito bela, verdadeira e sensível reflexão. acrescento o meu sentimento: Ler para mim também é transcender.