TRAVESSURA E ESFIRRA

Minha primeira infância foi na Rua das Acácias, em uma casa com amplo gramado e dois cachorros: um vira-lata chamado Totó e um pastor alemão, o Xerife.

Morria de medo do segundo, que passava o dia no quintal da casa. Para mim, morador Da Casa até somente os 6 anos idade, Xerife era um mamute. Memória de criança é uma onda, viu! 
Apesar de dócil, para não dizer abestalhado, quando conseguia escapar, era um deus nos acuda. Melaine Klein, discípula de Sigmud, tem uma teoria muito louca sobre o “seio bom e o seio mau”, na qual afirma – aqui de maneira ultra simplória – que  nesta fase, a da amamentação, a criança experimenta, pela primeira vez o receio da morte. Porra nenhum, mermão! Medo da morte era estar brincando na grama e dar de cara com aquele urso correndo em sua direção, com a maior língua do mundo, semelhante a uma gravata vermelha,  pendendo entre presas afiadíssimas.

Pais divorciados, A Casa virou história e nostalgia. Sequer sei que fim levaram Totó e Xerife... Meu único contato com cães veio bem mais tarde através das propagandas televisivas de uma ração chamada Papita.

Sempre me interessei por comerciais. Até cogitei a possibilidade de prestar vestibular para Publicidade, veja só.

Lembro claramente o reclame da Poupança do Banco Econômico, com os três sacis fugindo da Dona Onça. Havia também o “não esqueça a minha Caloi”; “Compre Batom, seu filho merece Batom”, do chocolate da Nestlè; se você é baiano, está na faixa etária do 40, certamente lembrará do “Ali, Ali, Ali, Alimbinha, a mais deliciosa merendinha”; “Tubaína, só se for Frilar; “eu tomo Anemocol”; “Bonita camisa, Fernandinho”, da US Top; “O tempo passa, o tempo voa, e a poupança Bamerindos continua numa boa”; “Leite condensado, caramelizado, com flocos crocantes coberto com o delicioooooooso chocolate Nestlé, do Chokito; “Cre-Cremo-Cremo-Cremogema! É a coisa mais gostosa deste mundo! Eu esqueço a boneca, eu esqueço a minha bola quando tomo, tomo, tomo, tomo, tomo ... Cre-Cremo-Cremo-Cremogema Tem um gosto que a gente gosta muito. A mamãe quer sempre o melhor pra gente:  Cremo-cremo-Cremogema!”; “Abra a booooooca, é Royal”; a emocionante “Não basta ser pai, tem que participar. Não basta ser remédio, tem que ser Gelol"; “Ortopé, Ortopé tão bonitiiiiiiiiinho”; sem contar as propagandas do cigarro “Hollywood: o sucesso”, sempre associado à juventude, locais paradisíacos e, acredite, esporte, com trilhas sonoras geniais: "Love ain't no stranger", do Whitesnake; "Burning heart", com Survivor; "Jump" do Van Halen; e "Every Little Thing She Does is Magic" do Police. E, em um dos comerciais mais fofos da história, aparecia logo de cara um filhote todo peralta enquanto uma voz dizia: “Esse é Rex, 15 kilos de pura travessura”. 

Alexandre, menino franzino, lá pelos seus 16 anos, quando estudava na Escola Técnica Federal, jogava basquete. Sendo  excessivamente mirrado, para, como diz por aqui, dar testa aos cavalões e conseguir se destacar ao ponto de ser o armador do Time de Geologia, precisou desenvolver sua agilidade, técnica e velocidade. 

Sua desenvoltura era inacreditável! Quase onipresente na quadra, driblava, se desmarcava e corria serelepemente... daí, já viu, né? Pequeno e serelepe, Alexandre foi apelidado de Rex, alcunha que utiliza até hoje, aos 42 anos e já pai de Felipe há 20. 

Em 1992, o conheci através de Glauber, Moska Billie,  primo  de consideração de Duda, com quem eu namorava na época. (na moral, eu adoro essa coisa de primo de consideração. Isso é genial!)
Conversamos rapidamente sobre música, pois eu adorava bateria e ele já tocava. Fiquei impressionado. 

Depois deste breve contato, sentados no chão do quarto, só voltei a vê-lo eu da plateia e ele nos palcos de Salvador. Rex foi fundador de duas das mais importantes bandas de Salvador: The Dead Billies (com Glauber, Rogério e Silvano) e Retrofoguetes, banda de valsa-surf-music-mambo-rock, com Rogério, Silvano e depois, Carlos Henrique e Julio. 

Fui a incontáveis shows: desde o lançamento da Fita Demo, no Hotel Pelourinho  – com projeção de filmes de gosto questionável – até o legendário SHOW DO CIRCO PICOLINO. Bem, este evento é difícil de ser explicado com palavras... na realidade, é uma tarefa árdua organizar as ideias diante de tantos acontecimentos naquela noite. Quem foi... foi!

Apesar das referências supracitadas, ou talvez por causa delas,  Rex é um dos caras mais espetaculares que conheço. No final das contas, acabamos nutrindo uma amizade de muito amor e companheirismo... porra,  como devem ser as amizades, ora bolas. 

Felipe, por sua vez, conheci quando já tinha 18 anos e também foi amor à primeira vista. Pense num moleque bacana, sangue bom, bem humorado e parceirão.  Pensou? É ele. O pivete é foda. Até fez questão de vir na comemoração dos meus 40 anos, mesmo tendo outra festa, certamente, bem mais interessante para ir. 

Quando tinha uns 8 ou 9 anos, pediu ao pai – é muito estranho estar com Rex e ouvir aquele homenzarrão dizer: ô, pai! – um trocado para... “procure saber, procure saber” 

- Pai, me dê R$ 1,00, aí?
- Pra quê?
- Pô pai, me dê aí, vá!
- Popeye é o namorado da Olívia Palito. Pra que é?
- Pooooxa! É pra comprar uma esfirra.
-Esfirra, que esfirra?
- Que a mulher do segundo faz.
- Ah, tá. E é gostosa?
- Não, é feia pra porra. Agora, me dê o dinheiro, aí, vá!
- ...

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