MIJO & RED BULL

“Ah, que bom você chegou/bem vindo a Salvador/coração do Brasil”

Não, você não é bem vindo ao nosso carnaval. O folião-turista, sim, claro. Mas, Bel, Durval, Ivete, Daniela e todos os outros que enriquecem a custas da senzala e da reinvenção dos navios negreiros, por favor, deixem minha cidade em paz.

 O carnaval soteropolitano é a maior festa privada do planeta. A população local é expulsa da sala de estar, enquanto as visitas do síndico se lambuzam com a comida e bebida servidas pelos moradores, agora, confinados entre a cozinha e o quartinho dos fundos.

Salvador é uma cidade com aproximadamente 2,6 milhões de habitantes. Segundo os dados da SECULT  relativos ao carnaval de 2010 (a variação dos números em relação a 2008 e 2009 são mínimas), deste total, 2,02 milhões (77,8%) não participam da festa, sendo que 1,57 milhão (60,5%) ficam em casa e 452 mil (17,4%) viajam.

Restam, então, pouco mais que 570 mil residentes (22,1%) participando da folia. Destes, 478 mil (18,5%) brincam, enquanto 93 mil (3,6%) trabalham.

Para não perdermos o raciocínio, vamos lá: até agora, somente 18,5% dos residentes de Salvador brincam o carnaval. Ou seja, em um universo de 2,6 milhões pessoas, apenas 478 mil participaram como foliões.

Ainda piora. Dentro do universo dos foliões locais, aproximadamente 59% pularam exclusivamente na pipoca, ou seja, pouco mais de 288 mil residentes. O restante (190 mil) se dividiu entre bloco; camarote; bloco e pipoca; camarote e pipoca; bloco, camarote e pipoca.

Caso esteja, assim como eu, tonto com tantos números, indico o contraste mais importante até agora, a meu ver: de 2,6 milhões de habitantes, somente 288 mil participaram do carnaval pipoca, gratuito, popular.

Há, contudo, entre defensores do carnaval para inglês ver, digo, para paulista participar, o argumento da injeção de dinheiro e oportunidade de a população ajudar na renda familiar durante um curto período de tempo. Para eles, a triste realidade: o rendimento médio real dos indivíduos que trabalharam durante os dias do período de análise é de R$ 737,02.

Isso mesmo, senhoras e senhores, entre os 2,6 milhões de habitantes de Salvador, 93 mil (3,57%) trabalham para ganhar, em média, R$ 737,02.

Em 2012, o então vice-prefeito, Edvaldo Brito, afirmou que ”o carnaval gerou aos cofres municipais um prejuízo parcial de R$ 8 milhões com a organização da festa.”.

Oxe, mas com tanto patrocínio, vendas de abadás, camisetas e impostos, para onde vai todo este dinheiro? Abrir um camarote não custa exatamente uma fortuna. A taxa inicial paga à prefeitura é de R$ 10,58 e mais R$ 42,34 por metro quadrado. Então, levando em consideração que o faturamento de um camarote pode chegar a R$ 14,4 milhões, não posso afirmar, mas tenho uma leve desconfiança a respeito de quem está faturando nessa brincadeira...

A lógica dos blocos de trio não pode ser mais nefasta. Pessoas pagam para andar sobre o mesmo asfalto, sob as mesmas intempéries, sofrendo o mesmo aperto e ouvindo a mesma música que todo mundo. Porém, estão devidamente cercadas por uma corda que as aproxima dos seus semelhantes - gente selecionada e bonita - e os protege do povão, do feio, do pobre e do preto

 Já os camarotes são esquizofrênicos. Dentro daquelas bolhas assépticas, semelhantes se reconhecem para celebrar Baco com litros de whisky + energético, isolados dos festejos populares que, coincidentemente, acontecem logo ali no mundo real.

Carnaval popular não passa de meia página nos livros de história, de uma nostalgia, de um devaneio romântico de alguns que ainda preferem o perfume de mijo no asfalto ao fedor do arroto de whisky com Red Bull.

7 Response to "MIJO & RED BULL"

  1. Dona do Caos Says:

    Hoje, pela manhã, me dei conta de que esse será meu primeiro carnaval longe do circuito Barra/Ondina. Dei graças a Deus! Mas, agora, lendo seu texto, refleti sobre o egoísmo “inocente” dos meus pensamentos, já que o problema de Salvador é bem mais maior que falta de sossego e excesso de música ruim.
    Pior do que perceber um número expressivo dos soteropolitanos que se enxergam vantajosos (por tirar um trocado no carnaval), é ver o modo como estes são tratados (achando muito normal) o fato de se amontoarem em calçadas, dormindo na rua para “marcar o seu lugar”, comendo e dormindo, literalmente, no mijo batizado de whisky com Red Bull.

  2. Alan Says:

    Nada mais a declarar. I rest my (our) case!

  3. Amigos de Cristiano Says:

    Como diria Cazuza, "não me convidaram pra essa festa..."

    Construimos essa cidade, suas belezas e sua fama de plural e diversa. Mas essa é uma cidade que festeja, que partilha mas que não convida aos seus!

    Carnaval é a festa da exclusão e da segregação!

  4. Matilha Says:

    Perfeito Lubisco, ótima análise do carnaval do Apartheid.
    Lembrando Renato Russo: "Vamos comemorar como idiotas, a cada fevereiro e feriado..."

  5. Cristian Lins Says:

    Parabéns Lubisco

  6. Cristian Lins Says:

    Parabéns Lubisco. Grande relato

  7. Cristian Lins Says:

    Parabéns Lubisco