ENCONTROS E VICE E VERSA


Felipe e Camila formam um belo casal. São bem sucedidos, simpáticos, excelentes anfitriões, ouvem rock e, ainda por cima, têm uma invejável lista de shows no currículo. 

Conheci Felipe através de René, o ogro, no final dos anos 1990. Tínhamos mais cabelos e menos gordura. René e eu nos víamos frequentemente. Nossos encontros eram basicamente regados a música, em alguma apresentação de sua então banda Jack Road – no falecido Calipso – ou nas noitadas no Edifício Marcelo, onde Cris morava.

Nós - Cris, Silvinha e Cyro - configurávamos o núcleo fixo das celebrações a Baco. O eixo ao redor do qual orbitavam amigos, amigos de amigos, affaires, paqueras, rabos-de-saia, colegas, o cara legal que alguém conheceu ontem.

Cyro, acompanhado do seu violão, era responsável pelo repertório. É inacreditável a memória deste rapaz, principalmente, para canções de gosto duvidoso.  Cantávamos de um tudo: Iron Maiden, Odair José, Beatles, Sidney Magal, Bob Dylan, Bon Jovi, além de um punhado de músicas italianas, embaladas por litros de suco de cevada. 
 
Como disse Silvinha, certa feita: “eram sempre as mesmas pessoas e as mesmas músicas, mas sempre nos divertíamos como se fosse a primeira vez.”

Grande parte das histórias está confinada nas nossas memórias e somente lá devem ser mantidas. Palavra escrita tem valor de decreto e, por via das dúvidas, prefiro não correr o risco de sofrer retaliações no âmbito jurídico. Se bem que, pensando bem, posso contar, preservando a identidade dos protagonistas... 

Não, melhor não. 

Por mais de uma década... PQP! É mais forte do que eu. Somente uma passagem inocente para ilustrar o perigo de ter informação privilegiada de terceiros:

Era um sábado comum. O Eixo já estava reunido por algumas horas, de maneira que havia certo torpor alcoólico pairando na espaçosa sala de estar do apartamento 201. Além de nós cinco, havia outras quatro pessoas, sendo três XX e um XY. 

Tínhamos cantado, a plenos pulmões, Zanzibar – hit garantido pelos incessantes apelos de Silvinha – e, então, fez-se silêncio, somente quebrado por uma convidada de um convidado:

- Sabe o que eu queria mesmo agora?

- ...

- Comer um cu.

-?!?!?!?!?

- Só enfiar o dedinho...

- !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Pronto, a partir deste momento, raros foram os cabras que se arriscaram a passar perto da fêmea sedenta. Quando o faziam, ou se esgueiravam pelas paredes ou levantavam agarrados com a cadeira, sem afastá-la do dèrriere

Como assim, menina, quer comer um cu?! Como assim, compartilhar com estranhos este desejo íntimo?! Como assim, moça?! Tá loucona!?

Agora, voltamos com a programação normal.

Por mais de uma década encontrei Felipe e Camila pouquíssimas vezes, apesar do bem querer que nutríamos. Finalmente, em 2012, fui visitá-los em Lauro de Freitas, onde vivem num apartamento muito confortável e bem decorado.

Estávamos na beira da piscina, conversando e sofrendo com o calor, quando vi um monte de formiguinhas, daquelas minúsculas, carregando uma vespa morta pelo pátio. Fiquei hipnotizado, enquanto elas percorreram uns 3m, ou duas maratonas pela perspectiva formigal.  Percebi, ali, observando a natureza, o quanto a obstinação nos mantém firme na busca dos nossos objetivos.

Foi assim comigo, anos atrás, no casamento de um amigo.

Solteiro até o último fio de cabelo, fui para celebração do matrimônio com sangue no olho e, já na entrada, avistei, do outro lado do jardim, em vestido um pouco acima do joelho, de tecido esvoaçante e em tom pastel, com cabelos meticulosamente desgrenhados, uma jovem com traços delicados, quase angelicais, mas com um olhar... um olhar... safadinho, por assim dizer.

Depois dos juramentos, troca de alianças e blá, blá, blá, pra caralho, o ato litúrgico finalmente acabou e iniciei a missão Caiu Na Rede.

A individua, em determinado momento, levantou-se da mesa e procedeu em direção ao bar. Calculei a trajetória, tracei a minha e a interceptei exatamente quando se preparava para pedir algo ao profissional responsável pelas bebidas alcoólicas. 

Tá ligado em novela da Globo? De qualquer horário, de qualquer época. Você assiste o primeiro capítulo e sabe como será o último? Pois bem, do jeito que ela me olhou e sorriu, tive certeza de como e onde aquilo acabaria... 

Às vezes, refleti, a vida podia ser sempre assim: tão fácil quanto mijar pra frente, melzinho na chupeta.
Ela bebericava e, aparentemente, falava alguma coisa, pois seus lábios se moviam. Porém, fosse o que fosse não interferia com o filme pornô B, no qual estrelávamos, passando em minha mente. Era um longa-metragem no quilo de E o Vento Levou e tinha tantas continuações quanto Sexta-Feira, 13

Eu sorria, fazia um comentário divertido aqui e outro acolá, mantinha o foco, revisava mentalmente a estratégia e a locação para primeira filmagem, ajeitava o cabelo dela deixando, de vez em quando, despretensiosamente, meus dedos tocarem seu pescoço, até que, num vacilo perdoado somente em caso de principiantes, prestei atenção no que falava...

Putaquepariu, seu idiota, por quê?! Por quê? Como assim, dar ouvidos?! Como assim, desviar do norte?!
Sei lá como chegamos a este ponto, mas, do nada, ela tava falando de religião, de Jesus e o caralho a quatro. Mostrou-se surpresa quando afirmei ter lido a Bíblia duas vezes. Por isso expliquei que a primeira tinha sido na época da Primeira Comunhão e a segunda após ler O EvangelhosSegundo Jesus Cristo, de José Saramago. 

 - Quem é Saramago?

Respirei fundo, convenci-me do quanto era arrogante exigir que todos conhecessem o velho José e respondi o óbvio, afinal, eu tinha um objetivo e um detalhezinho de nada não iria me desviar:

 - Um escritor sem muita importância aí.

A conversa avançou, o espaço entre nós diminuiu e já até tinha esquecido o assassinato do mestre patrício. Ela, com alguns bons mililitros de champagne no juízo, parecia arroz Uncle Ben’s (soltinho, soltinho).
Porém, até o mais obstinado dos homens têm seus limites e, neste fim de tarde primaveril, encarei o meu. Ainda hoje, acordo abruptamente, no meio da noite, com aquelas palavras buscando um significado...  

Falávamos sobre a vida noturna em Salvador, as opções de lazer, sair ou ficar em casa etc e tal. Tudo ia bem, até...

- Tem gente que gosta de ficar em casa e vice-versa.
- ...

7 Response to "ENCONTROS E VICE E VERSA"

  1. Mariana Paiva Says:

    Maravilhoso. amei, amei, amei! <3

  2. prafalardecomer Says:

    Pelo direito das casas que gostam de ficar nas pessoas!

    hehehe
    luv.

  3. Waré Says:

    anhein? como assim??? Por cristo... e a história do "comer um cú" me fez rolar de rir aqui.
    bjs, Lubis

  4. Dona do Caos Says:

    Sim, e Saramago é quem mesmo? (brincadeira, rs)
    Sua narrativa lembra um texto que escrevi em 2008 (Traiçoeiros)... “vestido na altura dos joelhos, cabelos esvoaçantes e olhos lindos, porém, traiçoeiros”.
    Perdi a inocência no instante do sussurro... num encanto que persiste por todos os "ENCONTROS E VICE VERSA".

    Parabéns pelo texto, seu Eduardo!
    Ri litros, mas espero que a minha imaginação (bastante visual) não me atormente com a história da garota que queria comer um cu.

  5. Dona do Caos Says:

    Parabéns pelo seu dia, escritor!

  6. Unknown Says:

    Grande Rabisco!Maravilha de texto, meu velho, e só assim pra eu me dar conta da versão feminina de Miguel ("O Destino de..."). Acho que meu inconsciente me fez deletar da memória (que você generosamnete elogiou no texto) essa insólita intercorrência.

    Felipe e Camila são gente muito boa mesmo, e eu e Claudinha tivemos a sorte de encontrá-los no avião rumo ao show de Paul (o único nosso, e décimo-sétimo deles).

    Um abraço!

    Cyro

  7. Unknown Says:

    Grande Rabisco!Maravilha de texto, meu velho, e só assim pra eu me dar conta da versão feminina de Miguel ("O Destino de..."). Acho que meu inconsciente me fez deletar da memória (que você generosamnete elogiou no texto) essa insólita intercorrência.

    Felipe e Camila são gente muito boa mesmo, e eu e Claudinha tivemos a sorte de encontrá-los no avião rumo ao show de Paul (o único nosso, e décimo-sétimo deles).

    Um abraço!

    Cyro