ALELUIA


Em 1994, no Shopping Sumaré, em Salvador, houve um micro festival de blues na praça de alimentação. O palco improvisado exibia uma banda, onde um cara de aproximadamente 1,90m, com cabelos pretos ultra cacheados, vestia um terno – com colete e tudo – uns dois números menores do que deveria ser, berrando um rock setentista de primeira. Eu, então, com 18 anos, sedento por música daquela década, fui arrebatado. Que porra era aquela?

Pois bem, era o Dr. Cascadura, liderado por Fábio.

Corta a cena.

No Candeal, não raramente, a paz do meu domingo era quebrada pelo som da bateria, vindo do Ed. Clariana, dois prédios antes do meu. O quarto de minhas irmãs, do lado oposto, era o refúgio perfeito. Contudo, meu abrigo dominical começou a ser invadido por outro baterista que, sabe Deus por que lógica, insistia em praticar no quarto de um prédio, cujas janelas davam pro quarto de Nana e Kika. PQP Futebol Clube!

 Era um tal de Thiago. 

Pois bem, tempos depois, os dois se encontraram. Fábio, já com dois álbuns lançados (#1 e Entre), deu as boas vindas a Thiago, que assumia os tambores do Casca, depois de caras como Maurício Braga e Duda Machado terem prestado serviço empunhado as baquetas. 

Muita água já rolou e saltamos mais de uma década até chegar ao Aleluia. Este álbum duplo produzido, gravado, mixado e masterizado por andré t., coproduzido por Jô Estrada, com participação de inúmeros artistas - Beto Bruno (Cachorro Grande), Jorge Solovera, Ronei Jorge, Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz, Mauro Pithon (Bestiário) e Pitty -  não me deixou dormir.

Conto o porquê.

Além de ter presenciado a gravação das guitarras e do baixo em O Delator, que conta com os vocais competentes de Jajá Cardoso da Vivendo do Ócio, também tivera o privilégio de ouvir algumas canções quando fui visitar Chicão, o filho de André t. e Duda
Há poucos dias, fui surpreendido com um email de Fabão que incluía o, ainda inédito, Aleluia completo: 2 discos e 22 faixas. No corpo da mensagem, emocionado, li:

 “Segura que é teu, Lubisco! Abaixo tem link, login e senha par baixar o Aleluia.
Abraço,
Fábio Cascadura.”

É isso, não consegui não me envaidecer por fazer parte deste seleto grupo que se deleitou antecipadamente com o que, em minha opinião, é, até então, o melhor álbum de rock do país.

Durante um café, comentei com Fábio que a Patrulha Soteropolitana do Rock torceria o nariz para tantos elementos impuros - cuidadosamente lapidados na construção do Aleluia. Afinal, ao lado das guitarras, por vezes, tradicionalmente distorcidas, ouvem-se percussões de candomblé, arranjo para madeiras, flauta, violino, trompas e até uma levada que remete ao samba reggae, como em determinado momento na faixa 6 do disco1.
 
Com seus cabelos grisalhos e voz serena, Fabão, disse:

 - Sabe, Lubis, não me importo mesmo.

A ficha caiu.

Não era uma questão de ser bem recebido, apesar de, particularmente, acreditar que quando tornamos uma expressão artística pública, as reações, em alguma dimensão, contam. Era, na realidade, uma questão de se desafiar enquanto artista... sendo assim, Fábio e Thiago, com o Aleluia, romperam suas fronteiras magistralmente. 

Nesse mergulho introspectivo às origens, o Cascadura fez o seu álbum mais egoísta e, por isso mesmo, o mais universal.

Atotô, Babá!

                                           Texto revisado por N. Lubisco

3 Response to "ALELUIA"

  1. Alexandre Beanes Says:

    Bicho, no primeiro segundo do disco já tem uma enorme diferença a tudo que o Casca já fez...vou ter de escutar isso com um cuidado enorme, tem detalhe demais.

    Abraço

  2. Janela da Cuca Says:

    Uau! Que delícia! Já tou doida para ter um! Aleluia!!! bjs

  3. prafalardecomer Says:

    O disco é muito bom mesmo. Gostei bastante e, como já conversamos, acho que dá pra sentir o quanto ele foi feito com cuidado e dedicação. É bonito de ver e ouvir um trabalho como o Aleluia.
    =]