IN VITRO

Carnaval de Maragojipe/2012
Houve, há muitos anos, uma convenção de mães e avós, onde se decidiu implantar algumas crenças, com o objetivo de facilitar suas vidas no que concernia ao estabelecimento de limites do cotidiano às crianças.

Quem nunca ouviu dizer que comer bolo quente dá dor de barriga? Ora bolas, quem, mesmo tendo que superar o receio de um desarranjo intestinal, experimentou, já na idade adulta, um bolinho recém-saído do forno, ainda fumegando, e constatou que nada de ruim acontece?

Tive um colega na UFBA que jamais passava pelo pátio após tomar um cafezinho na cantina, entre uma aula e outra. Questionado se preferia chegar atrasado a atravessar a brisa que amenizava o calor do Instituto de Letras, respondeu:

- Voinha sempre disse que tomar café quente e ficar no vento faz mal.

Na minha infância, quando ainda morava numa casa ventilada e com um amplo jardim, escutei diversas vezes de Olga – mãe de sete filhos –, a babá de Kika, minha irmã caçula, que se o vento passasse enquanto estivéssemos fazendo careta, ficaríamos com a cara daquele jeito para sempre.

No meu caso, até hoje carrego a dúvida se um vento, de fato, passou, ou foi uma piada genética.

A careta, em si, tem várias funções, de acordo com a cultura local. Os jogadores da seleção de rúgbi da Nova Zelândia, conhecidos como All Blacks, por exemplo, antes de todas as partidas, diante dos oponentes, executam o Haka, uma dança Maori que demonstra a paixão, o vigor masculino e a identificação com a raça. É usada tanto para dar boas vindas a visitantes, quanto para desafiar tribos inimigas.

Atualmente, o Haka é conhecido mundialmente pela performance de intimidação no início dos jogos dos All Blacks. O chefe que conduz a dança - jogador mais velho e de sangue maori - grita aos companheiros um refrão de incitamento e conduz uma coreografia que termina com uma careta horrenda.

As carrancas, cabeças com aparência monstruosas, esculpidas em madeira, comumente encontradas na proa das embarcações que navegavam pelo Rio São Francisco, serviam para afugentar os maus espíritos.
Em Maragojipe – cidade que fica exatamente no encontro dos rios Paraguaçu e Guaí, no recôncavo baiano, cuja economia, outrora, gozou de certa pujança, baseada na larga produção de charutos pela, hoje em ruínas, Suerdieck – caretas, que são, aqui na Bahia, o folião que leva fantasia da cabeça aos pés para não ser identificado, e máscaras se confundem, mas confluem no seu significado primordial: festa.

O carnaval de Maragogó, já patrimônio cultural do Brasil, ainda mantém a tradição das máscaras, com suas vestimentas secretamente elaboradas ao longo do ano, para não serem reconhecidos. É, como chamou atenção René – maragojipano de nascença, de alma e meu anfitrião durante minha primeira participação na folia de sua cidade natal – “um carnaval narcísico”.

Verdade. Os caretas, ao se depararem com uma câmera fotográfica, fazem pose para qualquer estranho que queira registrar aquele festival de luxo, simplicidade e alegria... o clima é amigável. As pessoas se abraçam, compartilham sorrisos, entram na brincadeira e, ao som de fanfarras, dançam sob um sol escaldante ou uma chuva torrencial.

Leila ficou hospedada comigo e Lali – namorada deste autor –, na casa da avó da minha amada. A minha, falecida há pouco em Porto Alegre, dizia que conhecemos as pessoas nas refeições, nos jogos e em viagens. Apesar dos muitos anos de convivência, jamais viajara com Leiloca. Logo na nossa primeira experiência sob o mesmo teto e dividindo tarefas, mostrou-se uma parceira do caralho. Sempre solícita, bem humorada, até mesmo logo após acordar, e, acima de tudo, divertidíssima, principalmente sob o efeito de bebida alcoólica.

Além do riso frouxo, aniquilava o superego a golpes de garrafa de cachaça. Embrenhava-se por searas que, em sã consciência, jamais o faria. Compartilhou, incontáveis vezes, detalhes dos quais eu preferia ter sido poupado e que ainda atormentam meus sonhos.

Uma noite, eu, sóbrio – o único na cidade, provavelmente – ouvia atentamente Leila falando do seu desejo da maternidade e da preocupação de envelhecer sem encontrar um homem que compartilhasse do mesmo sonho, quando ela lembrou de um trato que firmamos anos antes:

- Amigo, ainda tá de pé o nosso acordo?
- Qual, babes?
- De você me doar esperma caso eu chegue aos 37 e não tenha encontrado o pai pro meu filho.
-Hum... sim, sim, porque não? Mas tem uma diferença fundamental agora, né?
- Qual?
- Oxe, amiga, eu tô namorando Lali! Então, aquela minha exigência de ser in loco acaba de ser revogada. Agora, vai ser in vitro mesmo.
- Por mim, beleza!
- E saiba que, no ato da doação, estarei pensando nela... vai ser uma doação pra você, na intenção de Laís...
- Melhor ainda, pois vai que o bebê nasce com o sorriso e o cabelo dela!
...

PS.: depois gargalharmos mudo por bons minutos, Leiloca contou que aquele raciocínio não era filho único. Séculos atrás, quando ainda namorava um carinha aí, estava na McDonald’s e viu uma menininha de aproximadamente 2 anos, bem loirinha e com olhos azuis. O namorado, sabendo da impossibilidade genética de produzirem um daqueles, brincou:

- Vamos fazer um igualzinho?
- Ai, ai, ai, você... SE, POR ACASO, EU TIVER UM BEBÊ LOIRO DOS OLHOS AZUIS, VOU SABER QUE VOCÊ ME TRAIU!
...²


Texto revisado por Nídia.

11 Response to "IN VITRO"

  1. Leila Says:

    Kkkkkk Adorei babes!!!!
    Beijo enormeee!
    Leila.

  2. Leila Says:

    Muito bom o texto babes, sem contar que me diverti lembrando do diálogo... Bjo grande!

  3. Peo Says:

    Duas sessões diárias de Haka na prefeitura e o metrô sai rapidinho.

  4. Breno Marques Says:

    Texto incrível "babes", deu vontade de prestigiar o carnaval de Maragojipe. "Peo" deu a receita dos movimentos em Salvador.. Haka neles !!!

  5. coisinhasdolar Says:

    hahahaha! Essa Leila é uma figura! Adorei o texto, adorei o carnaval, adorei que Lalai achou você e você trouxe tanta gente bacana junto!

    Beijooocas

    Mari

  6. prafalardecomer Says:

    Ótimo, amor! Adorei o texto. Valeu à pena ter guardado segredo. :)

    Leila é figura demais! Uma companhia massa. E esse carnaval vai render até o ano que vem, quando a gente for pra lá outra vez, pra trazer novas histórias.

    te amo!

  7. Antonio Says:

    Muito obrigado Eduardo Lubisco por simplesmente destruir a imagem pura e inocente de minha antiga professora Leila. Mas que eu ri pacas, eu ri. Muito bom velho! =D

  8. Almerson Passos Says:

    A cada dia percebo que a nossa infância é a base de tudo que para possamos ser alguma coisa hoje. Texto super interessante, com muitos significantes e repleto de significados. Como digo... Nesse mundo tão inverso, nós, adultos, somos uma criança sofrida...

  9. Daniel castelani Says:

    Muito bom como sempre meu irmao.

  10. Cláudia Says:

    Massa, Lubisco!
    Essa história do vento passar ouvia quando ficava vesga. Ri muito relembrando isso.

  11. mandy Says:

    Bem, já comentei que gosto do jeito que escreve (((:
    Essas coisas convencionadas por mães são mesmo interessantes. Fazer careta e "passar o vento", deixar a sandália virada ou roupa ao avesso, beber leite depois de chupar manga...