E AS AMIGAS?

Para um educador, comecei a ler Paulo Freire tardiamente. Sim, me incluo, sem modéstia alguma, no rol dos educadores e não dos professores. Educar é mais do que ensinar ou meramente treinar, principalmente em tempos de supervalorização e, por isso mesmo, descrédito do ingresso ao ensino superior.

O mais sábio de todos os educadores na história deste país me fez compreender aquilo que me mantem firme aos meus princípios e, dentro da minha sala de aula, fazendo a diferença, provocando, instigando o pensamento crítico, estimulando o questionamento - inclusive do que digo - e reforçando as potencialidades quase inertes de uma geração: a raiva é fundamental, desde que não se reverta em reação raivosa, mas, sim, em energia criativa.

Minha primeira leitura foi um soco no estômago: A Pedagogia do Oprimido. Ninguém, com o mínimo de compromisso social, passa por esta experiência – a de desvelar o romantismo da educação - igual. A partir daí, devorei tudo que apareceu pelas prateleiras de Salvador.

Certa feita, chegando em casa com mais uma fornada, direto da Saraiva, minha mãe, impressionada com o quantidade de títulos do mesmo autor, me saiu com essa:

- Conheci Paulo Freire.
- Mentira! Como assim, D. Nídia?
- É, almocei com ele no comecinho dos anos 1980. Acho que foi em 82, quando ainda era diretora do Sistema de Bibliotecas do Estado e fui para um congresso em João Pessoa, onde ele era um palestrante.
- Mas... assim... almoção coletivo e você só tava na mesma mesa, né?
- Não, não. Uma das organizadoras do evento me chamou pra almoçar com eles e mais um punhado de gente. Sentei no lado dele e conversamos por várias horas. Eu ainda era muito jovem e, apesar de estar completamente encantada com tanta sabedoria e humildade, não tinha a dimensão exata do que estava acontecendo.
- ...
- E ainda se despediu me dando um beijo na testa.

Escataploft! Caí da cadeira.

Dando seguimento ao meu mergulho nos Mares de Freire, dei início à leitura de A Importância do Ato de Ler. Bem no comecinho do livro, me deparei com uma nota de rodapé que dizia: “palestra apresentada no XI Congresso Brasileiro de Biblioteconomia e Documentação em João Pessoa em janeiro de 1982.”.
Escataploft²! Putaquepariu, mermão! Como assim!? Tava lendo a tal palestra do almoço. Porra, assim não vale. É muita informação. Muita informação. Muuuuuuita informação, caralho!

Outra leitura que invariavelmente me surpreende, mesmo sendo repetida, é Mário Quintana. Este gaúcho de Alegrete, para mim, é sinônimo de poesia. O velho Quintana, que já nasceu com 90 anos, enxergava poesia onde todos viam cotidiano. Quando ainda me aventurava escrevendo poemas e tinha pretensão de publicar um livro, já havia escolhido meu verso de abertura: O que gostaria de dizer, Mário Quintana diria melhor...

O livro jamais saiu, mas a minha leitura do Velho, manteve-se firme e apaixonada. Comecei com uma compilação presenteada à minha mãe, por meu pai, em 1968. Putaquepariu, mermão! Em 1968 o cara já tinha uma compilação! Bem, a partir daí comprei o que encontrei... e meus amigos mais próximos me ajudaram a aumentar minha coleção.

Em 1994 ou 1995, não lembro bem, após um término de namoro traumático, eu, então com 20 anos, conheci uma jovem atriz de 16, chamada Manhã. Meu encantamento foi imediato. Lutei pra conquistá-la, mas, devido à minha conturbação emocional, a história acabou, como não poderia deixa de ser, em sofrimento. Porém, antes do fim - quando ainda sorríamos do nada - no dia do meu aniversário, ganhei mais um livro de Quintana com, talvez, a mais bela das dedicatórias já feitas.

Devorei as poesias sem pressa. Uma a uma, saboreando cada pausa e vírgula; as imagens, sabores, perfumes, cores, texturas e, principalmente, cada palavra não dita. Li e reli; dormi e acordei; me perdi, me reencontrei e me perdi novamente...
Uma das minhas prediletas é bem simplória. Na realidade é quase uma minicrônica poetizada. Fala de um porteiro com idade já avançada que acreditava que ratos, ao envelhecerem, viravam morcegos. “Ora bolas, morcegos”, pensei enquanto lia. Foi quando o velho Mário concluiu do jeito mais Quintana possível: “Jamais tire um brinquedo de uma criança, tenha ela oito ou 80 anos.”.

O melhor brinquedo, a despeito da idade, é a imaginação. Na infância é, não somente um brinquedo, mas o maior aliado. Lembro que tinha amigos imaginários que moravam da casa de minha Vó-e-Madrinha, como ela própria gostava de ressaltar. A primeira coisa ao chegar à casa dela, no apartamento 101 do Ed. Cerejeira, na rua Guillard Muniz, era correr para o quarto utilizado à guisa de sala de televisão e afastar o sofá para conversar com eles. Somente então iria brincar com os amigos da rua.

À medida que nos afastamos da infância, deixamos, no geral, a imaginação pra trás também e, lamentavelmente, aceitamos como um fato normal e inexorável da vida. Contudo, acredito que esta força imaginativa não se rende facilmente e, de uma maneira ou outra, se esgueira pelas brechas da rotina adulta, seja através das mais diversas expressões artísticas ou, simplesmente, numa conversa entre amigos, exercitando a fantasia.

Já me peguei incontáveis vezes divagando sobre o que fazer caso ganhasse sozinho na Mega Sena acumulada. A primeira coisa seria fazer um American Express Platinum... isso mesmo, aquele sem limite. Aquele que, caso queira, pode-se entrar numa lojinha e sair com uma Ferrari 0 km. A outra prioridade seria viajar o mundo, sem pressa. Para isso, duas coisas são fundamentais: roupas e uma boa câmera fotográfica. Então, meu primeiro destino seria Milão, para onde iria sem bagagem alguma, somente para comprar na capital mundial da moda. Pronto, um problema já estaria resolvido. Agora, com minhas malas entupidas das melhores vestimentas que alguém pode imaginar, partiria para o Japão, compraria o mais moderno equipamento fotográfico disponível, com todas as lentes que sempre desejei. Aí, sim, daria início ao meu passeio ao redor do globo.

Certa feita, numa mesa de bar, acompanhado de um punhado amigos e amigas, Amarelo, também conhecido como Cândido Neto, me saiu com uma ótima, quando conversávamos sobre o mesmo tema. Disse que alugaria um transatlântico, contrataria Eric Clapton e o Aerosmith para fazerem diversos shows durante um cruzeiro por todos os mares. O detalhe é que convidaria somente os amigos. Uma das meninas da mesa, então, meio ofendida, o interpelou:

- Só os amigos? Porra, Amarelo. E suas amigas?
- Veja bem, as amigas eu contrataria na Suécia.

Este texto foi revisado por Nídia Lubisco

14 Response to "E AS AMIGAS?"

  1. Lucas F.R.Altmicks Says:

    Olá! Sou sobrinho de Amanda Ribeiro, e cheguei aqui através de um link no facebook.

    Achei seu texto genial. Apesar de ter uma temática simples, comum, o texto foi muito bem escrito e tocante. Muito poético. Adorei o Escataplóft!

    Mario Quintana realmente é muito bom, a propósito. Tenho uma coletânea de trovas dele aqui.

    Bem, é isso! Você ganhou um fã!

  2. Lali Souza Says:

    Mas você ia passar longe desse cruzeiro, hein bonito? hahahaah

    Muito bom o texto, lindo. Como sempre, me emocionei e me diverti ao mesmo tempo. :)

    luv.

  3. Claudia Guimaraes Says:

    Adorei chegar em casa e "te ler". Me fez retornar a minha infância a tempos tão esquecida por mim. Tempos estes que me trazem à realidade do agora e me faz perceber como o hoje é tão impessoal e fútil. Na infância, com toda a simplicidade que possa ser, tudo acontece, porque é o momento do acreditar, do aceitar e mesmos na nossa inocência, momento onde tudo acontece porque nos permitimos. Hoje, mais velhos, mais "educados??", mais experiente, as coisas parecem estagnadas, paradas no tempo. Ué, mas não estamos mais pensantes? mais atuantes? e por pensar muito, deixamos de nos permitir. hoje temos mais fome, não só fome de comida, fome de aprender, fome de informação, fome de boas leituras como Paulo Freire e Mario Quintana e tantos outros, fome honestidade, fome de um pouco mais da inocência dos tempos de criança. Excelente!!! Muito bom mesmo!!! Desculpe se cometi erros, eu sempre os cometo, mania de correr demais. Saudade dos tempos em que eu não precisava correr tanto e tudo acontecia da mesma maneira.

  4. Le Frufru Says:

    Vou " te lendo" e ao mesmo tempo que me divirto e me emociono, vou sonhando, relembrando coisas que marcaram....

    Adoro!

    Sempre incrível!

    Não pare de escrever, NUNCA!

  5. mariana Says:

    Vou " te lendo" e ao mesmo tempo que me divirto e me emociono, vou sonhando, relembrando coisas que marcaram....

    Adoro! :)

    Sempre incrível!

    Não pare de escrever, NUNCA!

  6. naline c.. Says:

    Sempre muito bom ler suas crônicas, causos e histórias Lubisco. Já tinha te falado o quanto acho magnifica a tua maneira de juntar os pontos de sua ideia e transformar o texto em uma agradável história que quando se acaba de ler existe um sorriso discreto no rosto ^^

  7. Aninha Says:

    Leve....divertida...gostei muito!

  8. Aninha Says:

    Leve...divertida..gostei muito

  9. beckyene Says:

    Gostei do seu amigo, ele foi de uma sinceridade imaculada!!!!
    Outra coisa, isso me lembrou um episódio parecido comigo que, (por favor!) guardada as devidas proporções, quando meu pai estava doente e eu ficava em casa com ele, ouvia música o tempo todo (minhas músicas, tadinho!) sem me importar mesmo se ele gostava ou não. Ele sempre foi tranquilão então pra ele Ramones ou Caetano tava de boa. Um dia ouvindo Janis, ele vira pra mim do nada e diz: Ah, eu já tomei umas com essa moça...
    -tá doido, pai?
    -Ela passou uns tempos lá em Arempebe e tal...
    E como diz vc "escataploft!"

  10. Mariana Paiva Says:

    Adorei, as usual
    :)
    e amei a coisa da Suécia.
    rs

  11. Alexandre Beanes Says:

    Amarelo é um sábio. Paulo Freire um gênio. rs

  12. Daniel castelani Says:

    Porra Du, não tinha lido essa ainda. Deliciosa leitura.

    PS: Amarelo, quero ser seu amigo, só pro caso de vc ganhar na mega.

  13. lubisco Says:

    na minha incompetência internética, qdo tentei aceitar o comment de PEO (que é vc, Peo?), acabei deletando. Segue o comentário q copiei do email que recebo do blogger.
    "Let's put our hands on the air to clap the yellow man."

  14. Peo Says:

    Eu sou um ser animado que atende pelas 3 letrinhas, ou, se preferir, amigo de Nara, Mari, Jú e tal(...), lá do grupo COC de teatro.
    Ia te cumprimentar terça pelo blog, mas tava arredado numa conversa ;)